CONFUSÃO NO DRIVE-IN

O celular tocou quando ele já estava no banho.

- Contei pra sua mulher que você está no drive-in com a manicure! Ela já deve estar chegando aí!  Odeio homem safado, que trai a mulher!

O “homem safado...“ jogou o celular sobre a cama, tomado de pânico. Apressadamente terminou de se enxugar e vestindo-se, gritava para a parceira.

- Rápido, a fofoqueira contou pra Dona Encrenca...

A manicure ajuntou as coisas às pressas - enquanto ele entrava correndo no carro - e foi logo abrindo a cortina. Apavorado, o cara começou a dar ré, acelerando devagar. Quando se sentiu seguro para fazer a manobra, pisou fundo no acelerador. Foi aí que o pior aconteceu. Bateu de cheio na porta direita de um carro que adentrava o pátio. Ambos os motoristas saíram furiosos, berrando, prontos pra briga. As parceiras se abaixaram no interior dos veículos para não serem reconhecidas, mas os dois homens, para esses era muito tarde para se esconder.

Estavam ali, cara a cara, os dois vizinhos, olhando um para o outro com cara de bobos. Um deles era o marido daquela que... “Contei pra sua mulher que você está no drive-in com a manicure... ... odeio homem que trai a mulher!”

 

ATENÇÃO: Este blog já não aceita postar mensagens. Você pode continuar prestigiando o meu trabalho aqui: http://rubo-medina.zip.net

 

O NOSSO AMOR

 

Tenho a felicidade.

O seu amor se faz presente em meu coração.

Me sussurra canções.

De um coro celestial que entoa o esse amor,

Fazendo com que dele jamais me esqueça.

 

Não sofro por ti,

Não sinto saudades.

Você faz parte do meu mundo.

Me traz felicidades...

Mesmo estando longe,

A sua presença está aqui, juntinho de mim.

Este é o nosso amor.

Isto é ser feliz com você.

CONSELHO DE MÃE

Pepa já estava toda produzida, só dando os últimos retoques na maquiagem, quando a mãe entra no quarto.

- Menina, você vai sair???

- Não tá vendo? – respondeu sorrindo.

- Mas nessa chuva? Aonde você vai nesse chuvão, menina?  

- Barzinho com uns colegas. Vou me divertir!

- Mas nessa chuva? Que desatino, que desespero é esse pra sair, menina?

- Mamãe, eu trabalhei ontem?

- Não entendi a pergunta!

- Entendeu sim – argumenta a filha rindo – pode responder!

- Trabalhou, claro!  

- Tava chovendo?

- Sim, mas onde você quer chegar? – a mãe começou a ficar encabulada.

- Então? Quando está chovendo e vou trabalhar, a sra não me diz: “Menina, que desespero é esse pra ir trabalhar?”

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OS CORRUPTOS

ACONTECEU NUM LUXUOSÍSSIMO RESTAURANTE DO LAGO SUL DE BRASÍLIA.

- Quero um filé de peixe ao molho de tamarindo e vagem cozida na água e sal, bem verdinha. Sal puro mesmo! E azeite de oliva. Puríssimo!  

- Algo mais, senhor?

- Morei nos Estados Unidos!

- E... ?

- Lá eu era Busboy...

- Quê isso?

- Um tipo de serviço que a gente faz em restaurantes, recolher das mesas utensílios usados pelos clientes...

- Ah! Sou louco pra ir pra lá. Faturar uma grana. Vim do Maranhão há pouco tempo. Aqui a gente rala muito e ganha uma merreca. Nem dá pra sobreviver.  Algo mais, senhor?

- Só um lembrete: se por acaso o peixe tiver espinho, um espinhozinho sequer, processo o restaurante!  

A ameaça soou bem séria. Logo após, o cliente voltou a comentar:  

- Nos Estados Unidos não se encontra espinho em peixe. Nem pra remédio! Aqui é essa z... ! Mais espinho que peixe!

- Certo! Vou dizer ao Chef.  

O garçom saiu apressado. Outro cliente, sentado à direita do exigente, se dirigiu a ele, puxando conversa. Esse era um homem grisalho na casa dos 50, muito bem vestido e perfumado, o qual exibia na mão peluda, um anel de formatura.

As mesas eram próximas, mas os dois trocaram apenas poucas palavras. Vinte minutos depois o garçom voltou com o pedido. O cliente que disse ter morado nos Estados Unidos pediu licença e começou a comer. Quando terminou a refeição, o homem grisalho quis saber:

- Satisfeito?

- Sim!

- Disse que morou nos Estados Unidos. Também morei. Fiz Pós na Harward.  Realmente o que disse a respeito do peixe é verdade. Lá a coisa é séria...

Falou sem encarar o exigente cliente, remexendo no prato onde havia uns restinhos de comida.

- Não encontrou espinhos?

- Graças a Deus não!

O grisalho brincou com o garfo, ao mesmo tempo em que enfiava a mão direita no bolso do paletó, de onde puxou uma carteira. Abriu-a e tirou uma identificação de Advogado, que deixou discretamente visível sobre a mesa

- Também comi peixe, mas não dei tanta sorte. Veja!  

E mostrou os espinhos.   

- Não mesmo...  

- O senhor ameaçou processar o restaurante acaso encontrasse espinhos. Podemos abrir o processo.

Disse, remexendo ostensivamente alguns espinhos no prato com o garfo e com a outra mão, alisando a carteira de advogado.

- Como?

- Deixa eu lhe dizer!

Logo após, houve uma troca de olhares mais intensa entre os dois, uma aquiescência, e começaram a conversar novamente. O garçom voltou. O exigente freguês mudou de postura.

- Eu disse que processava o restaurante se encontrasse espinho. E isso aqui, o que é? Me diga!

O garçom ficou embaraçado, sem argumentos. Gaguejava, tentando encontrar as desculpas necessárias. O grisalho se intrometeu, enfiando a mão no bolso do paletó e tirando a carteirinha de advogado que havia guardado.

- O cliente tem razão! Poderia ter se engasgado. Estou aqui como advogado para defender os seus direitos... Gostaria, senhor?

O garçom arregalou os olhos.  Achou a situação meio estranha, mas imediatamente mudou de atitude.

- Querem saber de uma coisa? Tô por aqui com esse restaurante. Pedi pra me mandarem embora e eles não estão nem aí. Nós três podemos ferrar o dono!

Os dois clientes, embora surpresos, responderam quase em uníssono.

- De acordo!

Para ganhar tempo e traçar a estratégia do golpe, o advogado pediu outro filé de peixe, um suflê de damasco e uma taça de vinho, completando:

- Então estamos combinados. Vamos arrastar uma grana aqui. Traga o meu pedido, dê um tempinho, depois chame o Gerente. Vamos ameaçar um escândalo pra ver no que dá!

O garçom saiu quase correndo. Não demorou muito e voltou com o pedido. Quando viu que o advogado estava terminando o suflê antes mesmo de comer o filé, voltou à sua mesa. Conversaram. Depois foi até o scotch bar e chamou o Gerente. O cerco estava se formando.

O Gerente, um rapaz jovem, alto e louro, trajando um caríssimo terno azul-marinho, veio até a mesa do exigente freguês. O garçom se antecipou:

- Este senhor quase se engasgou. Encontrou espinhos no peixe. Ele já morou nos Estados Unidos e lá, espinhos dão processo. O Sr sabia disso?

O Gerente arregalou os olhos verdes, que de um segundo para o outro se tornaram cinza. O exigente freguês confirmou, mostrando uns três espinhos colocados cuidadosamente num canto do prato, enquanto o grisalho, fingindo-se alheio à conversa, cortou uma fatia do segundo filé que antes nem havia tocado e levou à boca.   

Como eles estavam sentados num canto do restaurante, ninguém percebeu o que se passava. O gerente, confuso, pediu licença e foi saindo, quando algo fez com que parasse. De olhos arregalados, avançou apressadamente para a mesa do grisalho e gritou:

- Gente, esse homem está se engasgando com espinhos... Será que tem algum médico aqui? Rápido... celular... alguém chame uma ambulância...

Tudo aconteceu em questão de segundos.

O advogado se debatia. Baba escorrendo pela boca. Como era muito branco, seu rosto já estava adquirindo a coloração de pimenta. Não conseguia falar. Apenas gemia e gesticulava, quase sem ar. Um outro cliente correu ao seu socorro. Forçou o queixo dele pra baixo e abriu a sua boca violentamente. Enfiou um dedo até a sua garganta e puxou com determinação. Sangue escorria na gola da camisa azul do homem, que nessa altura já estava sem o paletó). O cliente arrancou de sua garganta um espinho do tamanho da cabeça de um dedo:

- Pronto! Dessa o senhor não morre!

Ele suava. Não conseguia dizer nada. Apenas enxugava o sangue que não parava de escorrer.

Ouviu-se na noite o barulho de uma ambulância parando no imenso estacionamento do restaurante. Enfermeiros e paramédicos correndo.... uma maca... vidro de soro... Uma agitação. E o vermelho da sirena formando imagens desastrosas nos espelhos do interior do estabelecimento. O exigente freguês aproveitou o tumulto e saiu de fininho.

O garçom, aquele que queria fazer parte do complô... cadê ele?

- Garçom!!!

Chamando.... Alguém gostaria de fazer um pedido? 

NÃO DEU CERTO

(LOJA DE PERFUMES IMPORTADOS NUM GRANDE SHOPPING. TARDE DE SÁBADO. UMA MULHER DE UNS 25 ANOS, LOURA E ESGUIA, VESTIDO VERMELHO JUSTÍSSIMO, COBERTA DE JÓIAS, CHIQUÉRRIMA, FAZENDO COMPRAS)

 

- Mais alguma coisa, senhora?

- Não, obrigada. Comprei demais. Chega!

Diz, entregando à vendedora um cartão de crédito.

- Senhora, esse cartão está no nome de...

- Eu sei! É meu marido! Está ali fora!

Comenta.  Depois, numa atitude que se pode classificar de infantil, coloca dois dedos na boca e dá um assovio agudo. Um homem, aparentando três vezes mais a idade dela, muito bem vestido também, que observa uma vitrine de loja de sapatos, se volta. A mulher sorri e fala com a vendedora no exato momento em que esta tira as mãos dos ouvidos.

- Ele já vem!

O homem entra na loja. A mulher vai ao seu encontro e quase esbarra numa Policial que acaba de entrar também. A loura o detém, empurrando-o energicamente para um canto. Os dois iniciam uma discussão. Só se percebe que estão se desentendendo pelo gesticular irritado do homem e das ponderações da esposa. A vendedora tem a impressão de que ouviu uma frase entrecortada:

-... quê isso? ... ficou muito caro...

A Policial está encerrando a compra, quando de lá mesmo a mulher a interrompe, dirigindo-se à vendedora:

 - Querida, me espera um segundinho? Meu marido é um chato, disse que gasto muito. Vou conversar com ele. Deixe tudo separadinho, ok? Já volto!

Dá três passos na direção da saída, puxa o homem pela manga da camisa. Os dois saem apressadamente da loja e se infiltram na multidão:

- Essa foi por pouco! Ainda bem que forjamos a discussão! E se a Policial desconfiasse? Você com esse cartão falso. Foi sorte! Mais cuidado da próxima vez, ouviu, maluca?

 

Uma hora depois, a gerente da loja, vendo que a cliente não retorna, diz à vendedora:

- Pode ir lanchar! Se ela voltar, eu atendo!

- Tá bom! Não demoro!

Na lanchonete, a vendedora encontra uma velha amiga de pré-vestibular e demora mais do que o previsto, colocando o papo em dia.  Quando retorna à loja por um outro corredor, vê três policiais saindo de uma joalheria. Estão conduzindo um casal: uma mulher de uns 25 anos, de cabelos curtos e negros, esguia, trajando vermelho, coberta de jóias.... Chiquérrima. E um homem que aparenta ser avô dela.

A moça não daria importância ao fato se não reconhecesse a mulher. Aquela que assoviou feito criança, que comprou uma fortuna em perfumes na sua loja, que discutia com o marido. Outro detalhe que lhe chamou a atenção: de vistas baixas, a mulher tentava esconder debaixo do braço uma peruca loura.

 

 

 

 

MICROCONTOS n. 08

ESSA FOI POR POUCO

Rodovia. O Policial viu o carro cair no abismo. Correu pra socorrer. Um homem, rastejando pra fora, pensou: “Tenho que soltar o mico-leão.”

 

DE ACORDO

Apenas os laços matrimoniais, nada mais em comum entre eles. Mas numa coisa o casal estava de acordo: não concordar um com o outro. Nunca!

 

NÃO TÁ QUERENDO MUITO NÃO?

Telemensagem de rádio: “- Quero um homem bonito, fiel, que tire toda essa mágoa de mim...”. Ouvinte dá gargalhadas: “- Nem terapeuta...”

 

 

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RELAX POR TELEFONE

Se você se sente cansado(a), estressado(a), depois de um longo dia de trabalho, depois de um daqueles dias... e deseja descansar um pouco, siga este conselho:

Em casa, vá pra sala. Deite-se num confortável sofá, ajeite bem o corpo com almofadas, estique as pernas, pense em coisas boas. Se da sua janela conseguir ver a lua, aproveite para desenhar bichinhos com o bailar das nuvens. Se gosta de leite gelado, peça a empregada que lhe traga um copo com leite fumegante. Se não tiver empregada, peça àquela vizinha que está sempre na sua casa nos momentos em que você menos espera, para ferver o leite geladinho, trazido da padaria, e te trazer um copo assim que ela apagar a chama. Aí você estará pronto(a) para pegar o telefone e ligar para uma operadora de telefonia, ou cartão de crédito, ou TV por assinatura, ou etc etc etc...

Quando conseguir atendimento, tomará um leite geladinho, delicioso, do jeito que gosta.

Como é uma “pessoa de classe”, que jamais perde a paciência e nunca desce das tamancas, depois da confirmação de até o seu grupo sanguíneo, ainda vai agradecer a Atendente – a de sotaque sulista – aquela que fala todas as frases telemarquéticas que te deixa na dúvida:

- Será que já ouvi isso em algum lugar?

Feito!!! Como diz o gaúcho. Estão resolvidos os seus problemas. Aqui usei o plural porque conseguiu ser atendido(a) e ainda relaxou bastante no sofá, tomando leite geladinho e apreciando o bailar das nuvens em volta da lua.

Aquela esperazinha - que não devemos chamar de chá-de-canseira - foi até bom para o seu relaxamento, não foi? Já que concordou, sejamos racionais mesmo usando irracionais como exemplo: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. O oceano tá infestado de tubarões. Você é peixinho... então...

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MICROCONTOS N. 07

 

IGUAL ONÇA

- “Mãe, qualquer pinta no corpo, Analu corre pro Dermatologista. Tá saindo caro”. – “Mande a sua mulher pro SUS. Ficará pintada igual onça.”

 

O MARIDO FOI O ÚLTIMO A SABER, COMO SEMPRE

Vizinhos contaram tudo! Quando ela parou na rua, ele já esperava. Correu gritando: “Não esperava isso de você! Me dar um carro de presente?"

 

CAMBALACHEIRAS

Para resolver saída de filhos à noite à cata de romances, duas mães procuraram uni-los num relacionamento. Detalhe: ambos do mesmo sexo.

 

ELA NÃO ALIVIOU A BARRA

Ficava as noites no bar com amigos. Anos e anos. A esposa estudando pra concurso. Numa briga de bar, ela mesma fez o BO, algemou-o e levou.

 

COISAS DE BAIANO

Não gostava do chefe e chamava-o de bundão. Ele ficou sabendo e foi confirmar. “Cabra, cumé que tu me trata?” Ele responde sorrindo: “Meu Rei”

 

MENTE TRAIDORA 2

Empregado odiava chefe e apelidou-o. Fofocaram. Ele foi confirmar: “Cabra, cumé que tu me chama?”. A resposta saiu sem pensar: - “Bundão”.

 

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MELHOR ASSIM

Ela tirou uma folga do trabalho para arrumar a papelada para a aposentadoria. Não iria se aposentar por tempo de serviço. Começou a trabalhar muito tarde porque teve que ajudar a cunhada, que trabalhava fora, a cuidar das crianças.  

Vendo-a em casa, a criança aproveitou para pedir ajuda numa tarefa escolar.

- Tia, a professora pediu pra gente fazer um álbum de família. A sra me ajuda?

- Se eu souber...

- A senhora tem foto?

- Claro, menina!

- É o seguinte: a gente vai colando as fotos da família e escrevendo o que a gente lembrar da pessoa. A sra me dá uma foto?

- Claro!

- Então pega a foto, tia!

Ela foi buscar. Voltou. A menina colou-a numa folha de caderno, onde já estavam a dos pais e dos irmãos e escreveu alguma coisa. A tia quis ler, ela pediu

- Peraí, tia! Depois eu leio pra senhora!

Demorou uns 10min e em seguida leu como qualquer criança de sete anos leria.

- Minha tia é boa, cheirosa, bonita, rica...

- Que rica, menina? Tá querendo que alguém venha aqui me assaltar?

- Tá bom! Vou tirar rica então...

Apagou a palavra. A tia observava-a. A menina ficou pensativa e depois perguntou.

- Tia, quantos anos a senhora tem?

Ela respondeu brincando:

- 36!

A menina retrucou:

- Pode parar, tia! Não vale mentir! A senhora já pôs até botox! Eu sei que já tem 42 anos!

- Menina esperta! É isso mesmo! Coloca aí no seu álbum 42 anos pra sua tia querida!

 

A MULHER IDEAL?

Aposentou-se. Estava meio desnorteado. Não sabia administrar o tempo livre nem o falatório da esposa no seu ouvido. (A mulher falava 24h por dia). Para se livrar do incômodo, começou a cuidar do jardim, passar ali quase o dia inteiro mexendo com as plantas, irrigando, inventando coisas.

Foi assim que conheceu a vizinha que recém mudou para uma casa do outro lado da rua.  

 

Todo dia ele a via saindo para as compras e a sua presença lhe dava prazer. Tinha vontade oferecer a ela uma flor, dar um bom dia, mas temia que fosse casada, ser mal interpretado e acabar estragando tudo.  Então, ficou esperando uma oportunidade de lhe falar. O aposentado sentia que estava nascendo dentro de si algo novo, um sentimento que nem ousava chamar de paixão.

 

 

Era uma cinquentona alta e morena. Trajava saia abaixo do joelho, cabelos presos num coque e de aparência muito discreta. Andava num ritmo cadenciado, sempre olhando para o chão. Dava a impressão de ser muito tímida e calada.

 

Certo dia, quando ele podava uma roseira, viu-a subindo a rua, carregando pesadas sacolas. Era uma oportunidade de oferecer ajuda, mas pensando bem, oferecer pra carregar sacolas pra alguém? É comum, “normal”? Melhor continuar o seu trabalho. A presença dela já era o suficiente para lhe dar felicidade.

 

Voltou à sua tarefa no jardim. Enquanto abaixava para apanhar os galhos da planta espalhados no gramado, ouviu o barulho de latas caindo. Uma sacola arrebentou e as compras da vizinha se espalharam pela rua. Ele correu para ajudar. Saiu catando latas e outros objetos espalhados no asfalto, pensando: “Deus é muito bom, deu-me a oportunidade... “

Ela permaneceu parada, observando-o. Tinha um sorriso simpático no rosto e as mãos permaneciam firmes, segurando as outras sacolas.

 

Após recolher tudo, ele se aproximou e entregou-lhe as compras. A vizinha sorriu, demonstrando agradecimento. Ele disse qualquer coisa que veio à mente; era a oportunidade de falar com a sua paixão. Com dificuldade para erguer a mão, a mulher fez um gesto no qual esclarecia: sou surda-muda.

 

MICROCONTOS N. 06

 

01 - SÓ DE CUECA...

TrêBado, perdeu o caminho de casa. Acabou dormindo no ponto de ônibus. De manhã, clarão ofuscando os olhos. Ouviu risos. Ele só de cueca...

 

02 - BEM FEITO

Fugindo do ex-namorado que descia a rua, entrou num portão que viu aberto... Foi o ex que a salvou do vira-latas que não largava a sua saia.

 

03 - GRÁVIDA TEM CADA UMA

Pediu caranguejo. Marido trouxe. Ao abriu a embalagem, ela berrou: "É siri! Não quero". Marido: "Amor, siri é caranguejo melhorado, coma!"

 

04 - FOI GOLPE

Contratada pra resolver situação de filha fora do casamento de doente terminal, analisando o seu IR, Advogada acha lucrativo casar com ele.

 

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MICROCONTOS N.05

01 - MÃE NO CATIVEIRO 

Direto na janela pescando vida alheia. O filho, revoltado, parafusou a janela. Ela ficou presa em casa. Ele, na cadeia. Crime: cativeiro.

 

 

02 - POR ESSA ELA NÃO ESPERAVA

Namorava os dois sem que cada um soubesse... se apaixonou e decidiu abrir o jogo. Ouviu dele: “Nós sabia! Nós sortiava qual ia sair cocê”.

 

03 - CHICOTE DO CORPO

Falava da vizinha, gratuitamente. Quando teve um ataque do coração, a vizinha foi a primeira a socorrê-la. Nem teve tempo de  agradecer...

 

04 - LEVOU O CANO

Inseminador. Um ano empregado. Quando teve que voltar pra casa, pediu  grana emprestada...  O fazendeiro contava os bezerros. Não gastou...

 

 

05 - GRÁVIDA TEM CADA UMA

Grávida queria caranguejo. Ele comprou. Ao abriu a embalagem, ela berrou: "É siri! Não quero". Marido: "Amor, siri é caranguejo melhorado!"

 

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MATO OU MOTEL

Henrique fez um churrasco no sítio e pediu à esposa para dar carona ao Marcos, um colega de trabalho. Queria estreitar os laços de amizade com quem trabalhava. A esposa se mostrou pronta para atender o seu pedido e apanhou o rapaz no estacionamento do prédio de escritórios, o qual localizava-se num bairro movimentado da cidade.

O sítio ficava a 60 km. Era necessário trafegar por um pequeno trecho de estrada asfaltada, depois a maior parte do percurso, por uma estrada de chão.

Ainda na estrada asfaltada, já bem entrosados os dois, batendo papo e dando boas risadas, o colega do marido avistou a placa luminosa de um motel na beira da rodovia. Logo se animou, pois conversa vai, conversa vem, ele não desgrudava os olhos dos atributos de Marcela, a esposa do amigo. Bem, vendo a placa luminosa do motel, o rapaz, fingindo admiração, disse:

- Ué... motel por aqui?

- Tem muitos!

Ele se calou por alguns instantes, depois soltou essa:

- Legal! Sabe o que me passou uma idéia pela cabeça? – disse ele, olhando-a mais demoradamente, sem deixar escapar parte alguma do corpo da mulher.  

Ela percebeu a insinuação na voz, bem como os olhares, mas disfarçava. Marcela era uma morena bronzeada de praia, bastante inteligente. E nesse dia, trajava um vestido de alcinhas florido, abaixo do joelho, mas que de maneira generosa, mostrava os contornos das coxas. Os cabelos negros, jogados nos ombros, quase escondiam os brincos de argolas. E um batom vermelho delineava os lábios sedutores daquele rosto tenro e juvenil.

- Qual idéia?  - perguntou, sorrindo, sem demonstrar muito interesse.

- Que horas começa o churrasco?

- A hora que a gente chegar. Meu marido não convidou muitas pessoas. Acho que só você e mais um casal com a filha.

- Hum... Dá tempo... quer mesmo saber o que pensei? – falou, olhando as pernas dela, ao mesmo tempo em que via o motel cada vez mais perto.   

- Diga!

- A gente poderia ir descansar um pouquinho ali. – apontou - Sabe, trabalhei muito hoje. Serviço estressante que o seu marido me dá pra fazer. E você também deve estar cansada. Professora... deve enfrentar uma barra!

- É verdade. Alunos não são fáceis.

- Que acha da idéia?

Marcela não respondeu. Sorriu ligeiramente mais uma vez e continuou dirigindo, calada, sem demonstrar nenhuma reação, mas uns 5 minutos depois, fez um retorno e pegou uma estradinha de chão. Marcos já estava impaciente com aquele silêncio e também com a falta de anúncios de motéis. Agora só se via mato adornando a estrada. E poeira!

- Que lugar esquisito! Estradinha estreita essa!

- É...

- Por que entrou aqui? Você ficou calada desde que sugeri que fôssemos descansar um pouquinho no motel.

A interrogação não serviu para quebrar o silêncio. Ela apenas olhou-o rapidamente e entrou numa outra estrada de terra, mais estreita ainda. Em seguida, parou o carro. E bastante autoritária, gritou:

 - Desce!

- O que? Pra que?

- Aqui termina a sua viagem!

- O quê? Você não vai me deixar nesse escuro!

- Pode apostar que sim! E a temperatura aqui, na madrugada, cai drasticamente!

Nesse momento o celular de Marcela tocou. Era o marido. Ela conversou naturalmente, sem tirar os olhos do rapaz.  

- Não, Henrique, o Marcos não veio. Passei lá, ele disse que tinha um compromisso, que não podia vir... Ok, amor, tô na estrada, não posso falar muito. Daqui a pouco chego. Beijos!

- Como você é mentirosa! Não sabia que Henrique era casado com uma mentirosa.

- E você fica aí, calado, enquanto entro no carro. Mas fique descansado. Não vou contar nada pro meu marido.

- Se quiser contar, conta... Mas eu ficar aqui, nesse escuro? Tá doida?

- Se tiver algum motel por perto, você pode alugar uma suíte “pra descansar.”

- Era só o que me faltava. Encontrar logo numa sexta-feira uma maluca pra estragar o meu fim de semana!

- Acho melhor você ficar quietinho aqui. Não fique andando escuro. Ouvi dizer que aqui tem onças!

Foi dizendo isso e entrando no carro. Fechou bruscamente a porta e arrancou cantando pneus. A poeira encobriu tudo. O rapaz ficou lá, no breu, desesperado, olhando pra todo lado. Estava apavorado mesmo.

Marcela dirigiu por alguns minutos sozinha, satisfeita por ter se livrado do importuno, mas depois pensou bem e resolveu voltar. Assim o fez. Parou quase junto do rapaz.

- Ainda bem que você voltou... – gritou ele alegremente, correndo na direção do carro. – Já tô sentindo frio...

- Calma. Só vim dizer pra tomar mais cuidado! Ouvi dizer que aqui tem lobos também. Onças e lobos!

- Deixa eu entrar nesse carro, Marcela, por favor!

Ele recebeu como resposta um olhar fulminante e o barulho da chave na ignição, ligando o carro, mas dessa vez pôde ouvir gargalhadas também, porque Marcela saiu lentamente, rindo e abrindo a escuridão da estrada com os faróis altos.  

 

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UM LADRÃO DE SENTIMENTOS

Ele sempre passava lá em casa para pedir resto de comida, dinheiro ou alguma roupa velha que a gente não usasse mais. Mal balbuciava as palavras, mas pelos gestos, a gente sabia o que queria. Apesar de não temê-lo, mantinha  distância, sempre na expectativa de que algo inesperado acontecesse, coisa que agora, 75 anos depois, vejo que nunca aconteceu.

A roupa suja e o cabelo branco e desgrenhado, compunham a sua figura. Além disso, ele exalavam um mal cheiro insuportável e tinha um aspecto assustador, razão também de eu não me aproximar. Mas, apesar disso, era um homem de bom coração. Muito dócil, em contraste com a sua aparência temerosa e repelente

Ninguém sabia de onde viera. Sabíamos que morava embaixo de uma gameleira, num cômodo construído com restos de tábuas e coberto de cacos de telhas e lonas.

 

Convivi com ele a minha infância toda; a sua presença na nossa porta de vez em quando. Certo dia, percebemos que fazia um bom tempo que ele não aparecia. De imediato, não demos importância ao fato, embora sentisse que aquela rotina havia, de certa forma, sido quebrada.

Passou-se uma semana. Nada de ele aparecer. Ficamos intrigados. Então minha mãe resolveu ir procurá-lo. Fui com ela. Ao chegar onde ele morava, tivemos uma surpresa. De dentro do casebre exalava um mal cheiro insuportável. Havia moscas e insetos sobrevoando ao redor. Arregalamos os olhos assustados, sem entender o que havia acontecido, mas mamãe, mesmo tapando o nariz, foi até a porta do casebre e puxou a lona para um lado, de maneira que vislumbramos o escuro lá dentro. Foi então que vi mamãe se contorcendo. Um som gutural saiu de sua garganta e seu corpo curvava freneticamente. Corri ao seu encontro gritando, procurando ampará-la, quando vi golfadas de vômitos jorrando de sua boca.

 

Ouvindo a minha gritaria, uma mulher que ia passando na rua veio correndo ao nosso encontro. Energicamente, segurou mamãe, enquanto a determinação saía quase que automaticamente de sua boca.

- Vamos chamar a polícia!

 

Quando a viatura do IML chegou com a polícia - homens de branco, com máscaras e lençóis para cobrir o corpo, a notícia já havia se espalhado e as pessoas estavam lá, querendo saber detalhes.  

Na seqüência, Peritos entraram e reviraram o casebre, espalhando coisas por toda parte. Pegaram um tapete velho e corroído e jogaram no quintal do casebre. Folhas de papel rabiscadas voavam livres ao vento... uma aliança de ouro rolou pelo chão. Reconheci uma fotografia dele - pelo menos havia certa semelhança na fisionomia - amarelada, quase apagada, acompanhado de uma mulher e duas crianças. Uma fotografia que o remetia a uma juventude perdida há muitos anos.

 

Como eu era uma criança em idade escolar e curiosa por todo tipo de escrita, saí correndo atrás dos papéis espalhados, lendo alguma coisa aqui e ali, sem entender muito. Eram coisas que falavam de amor, de namorada, de família... versos... livros de autores que  eu nem sabia pronunciar o nome. Coisas pessoais que eram arremessadas, assim, sem cerimônia, fora do cômodo.

 

Na época, não entendi muito bem o ocorrido e nem havia em meu coração de criança sentimentos maduros para isso. Hoje, muitos anos depois, sei que aquele homem era um poeta. Amara, sofrera... Deve ter tido os seus momentos de solidão, de alegria, de felicidade. Como qualquer um de nós. Os rabiscos em sua casa, no chão, sobre o caixote de madeira que servia de criado e espalhados por toda parte... livros, tudo, tudo denunciava que fora uma pessoa que tivera uma boa educação, que lera bons livros.  

 

Naquele instante percebi porque não gostava que a criançada se aproximasse da casa, quando passávamos para ir jogar pelada. Ali ele guardava, como se fosse um tesouro, todo o histórico de sua vida: as alegrias, as tristezas e as fantasias de um coração que sonhava. Guardava todos os sentimentos que habitam um coração e talvez tivesse medo de que algum ladrão os pudesse roubar.

 

   

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MICROCONTOS N. 04

01 - NADA DE CAMA, POR FAVOR!

Divorciaram. Ele continuou morando com a ex. Ela fazia tudo do mesmo jeito pra ele. E não ia receber pensão se ele morresse. Exigiu salário.

 

NADA DE CAMA, POR FAVOR – 2. ato

Armação. Morto ainda no caixão. Chega Advogado. Viúva: Esse aí dizia que ia me deixar na mão, que eu não receberia pensão.  Cadê os papéis?

 

 

02 - TUDO ISSO? NOSSA...

Solteira. Quarentona. Bonita. Sem filhos. Independente. Morando sozinha. Procurando um relacionamento sério. Gostou? Interessou? Pega procê!

 

 

03 - PAIXÃO FULMINANTE

Abandonou o caso. Estava se apaixonando pela vítima e tinha medo de perdê-la, o que aconteceu. O matador de aluguel cumpriu a promessa.

 

 

04 - UM CORPO QUE CAI

Falava da vizinha, gratuitamente. Quando teve um ataque do coração, a vizinha foi a primeira a socorrê-la. Nem teve tempo de agradecer...

 

 

05 - O PASSADO DE PRESENTE

Abriu a porta. Deparou com o passado à sua frente, propondo-lhe futuro. Fechou novamente a porta. Não desejava aquele presente. Não com ela.

 

 

06 - TROCA-TROCA

A vida é uma troca. Aos 80 anos, ele deixou de ser um pão-duro, mão-de-vaca. Quer saber como? Vou contar. O casamento com uma menina de 21.

 

   

07 - ALIANÇAS

Para ser notada, pegou o cãozinho e entrou na loja porque viu o cara que já tinha ficado com ele. O rapaz escolhia alianças com uma garota.

 

 

08 - CADA UM NA SUA

Casaram. Casas separadas. Ela não deu a chave. Abria pra ele a porta. Escondido, ele fez cópia. Quando testou a chave, o casamento acabou. 

 

 

09 - MAUS TEMPOS!

Faz tempo! Casa vendida, Corretor deposita dinheiro na conta pra acerto depois. Confisco de contas. Corretor morre. Pô, ainda na justiça?

 

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