BICHARADA

O pai, incomodado com a situação do filho, pediu ao Encarregado de Pessoal que arranjasse para ele um emprego na construtora. Esse Encarregado era um  cinqüentão grisalho e bigodudo, paciente e bem quisto na obra, de nome Gonçalo. E admitiu o rapaz porque era um favor que fazia a um velho amigo, embora soubesse da sua fama de ser devagar, desinteressado, lerdo e pouco inteligente.

E é verdade. Carlinhos não queria nada com a dureza. Passava os dias  brincando de skate na rua com os marmanjos da sua idade. E sabe, gente, que ele já tinha completado vinte e sete aninhos? E nem tinha namorada. Acho até que nem se interessava por mulher. Mas espere, pare de pensar bobagens! Ele não tinha fama de gay não. As más línguas o pouparam. Felizmente!

 

No primeiro dia de trabalho, o Encarregado da obra, procurando ambientá-lo com o local, chamou-o a uma sala onde havia um telão de computador e foi lhe mostrando a planta da construção. Explicava detalhadamente o mapa, mas o rapaz não demonstrava nenhum interesse. Então o Encarregado viu que ele não entendia nada de informática e resolveu levá-lo pessoalmente ao canteiro.  

- A equipe aqui rala direto. – dizia o Sr. Gonçalo - Todos trabalham demais. Está vendo aqueles dois ali? Trabalham juntos... parecem clones... são irmãos   gêmeos.

Continuou falando da equipe de trabalhadores, as funções de cada um. E nada, o rapaz sempre aéreo. Diante disso, o Encarregado decidiu pôr fim à  conversa.

- A gente tem que manter uma obra bem limpa. Principalmente aqui... tem muito bicho: cobra, caranguejo, sapo, escorpião...

O rapaz interrompeu-o intempestivamente.

- Eu sou touro!

- Não, estou falando daquele bichinho venenoso que pica...

- Sai fora...

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Três dias depois, chegou um servente no almoxarifado e pediu:

- Uma lata de branco gelo!

- Tem não, camarada! Nem vi geladeira aqui!

- Rapaz, tô falando da tinta branco gelo!

- Ah, seu burro! Também, não explica!

O servente não era muito paciente. Não gostou do adjetivo e nem do tom empregado e os dois acabaram discutindo. Foi um bate-boca danado. Quase saiu porrada. A turma do “deixa-disso, segura-o-homem” teve que intervir para acabar com a briga.

 

Nesse mesmo dia, mataram alguns escorpiões num monte de madeiras usadas. O encarregado fez questão de mostrar ao recém-admitido:

- Não te falei que aqui tem escorpião? Veja...

Carlinhos se encolheu, assustado.  

- Sai fora... Como trabalhar sossegado num lugar desses?

 

No dia seguinte, o rapaz do “branco gelo”, voltou ao almoxarifado. (Era um servente magro, de voz muito grossa e aparentemente assustada). Evitou falar com Carlinhos. Foi direto ao Encarregado.  

- Uma Coral...

Carlinhos, quando ouviu a palavra coral, pensou nos escorpiões que viu no dia anterior. Jogou tudo pra cima e saiu correndo do escritório, enquanto os outros empregados davam gargalhadas e o Encarregado, em meio à confusão, gritava:

- Ei rapaz... volta...  volta aqui! Coral é tinta para pintar paredes!

Alguém aqui acha que o lerdo ouviu? Claro que não! Estava bem longe. Corria feito louco na direção da saída.

Acho até que foi ele que inventou aquele ditado: “sebo nas canelas...” “perna pra que te quero...” E o filme?: “Corra Que a Polícia Vem Aí...”

 

 

 

CASAMENTO SOB MEDIDA

Foram feitos um para o outro. Aquele casamento era tudo o que ela desejava para constituir uma família, pois o marido representava a materialização de todos os seus desejos. Do outro lado, Genoveva personificava a oferta daquilo que o rapaz mais desejava, mais necessitava. Mas havia diferenças entre o casal. E a despeito disso, tiveram um filho, uma criança esperta, bonita e inteligente. Puseram-lhe o nome de João Miguel, o qual tinha um amor exacerbado por animais. Os aquáticos, principalmente, eram a sua predileção.  

Assim, para deixá-lo mais feliz, o pai comprou patos e construiu um pequeno lago no jardim, para os bichinhos nadarem. Foi a realização do sonho da criança. O brilho nos seus olhinhos constatavam essa verdade.

 

Voltando ao casamento: havia uma diferença de idade abismal entre os dois. A esposa era 26 anos mais velha. Quando se casaram, já tinha passado da hora de ser mãe, mas o Pedro Paulo adorava criança. E com 23 anos, era o momento ideal para ser pai. Por causa da idade da esposa, foram obrigados a fazerem testes e mais testes. Uma batalha! Assim, lançaram mão de tudo que há de mais moderno na medicina. Gastaram uma fortuna. Dinheiro para isso jorrou como água de cano arrebentado na rua. Eles não tinham o suficiente para arregalar olhos de gerentes de bancos? Então? E a relação de bens? Essa fazia o Leão da Receita ficar de boca arreganhada, sedento para abocanhar a sua parte.

 

(Apesar da fortuna, Genoveva, morenona gorda, era uma pessoa, digamos assim, rude. Acho até que nem chegou a esquentar banco de escola. Não era nada refinada, quesito que passou longe da ricaça. E as roupas? Nem vou me meter no guarda-roupas da gorducha.).  

 

Assim, após gastos milhões e milhões, depois de toda essa batalha contra a natureza, veio ao mundo o menino, essa coisinha linda e inteligente que acabei de descrever.

Mas nem tudo são flores, como diz o chavão. E é bom esclarecer que de vez em quando, o casal se estranhava. Quando brigavam, era briga feia mesmo. Peraí, estou sendo incoerente quando digo que foram feitos um para o outro? Deixe-me esclarecer: o rapaz tinha a juventude e o vigor de um homem que ela nem empregou esforço para conquistar. Genoveva tinha o dinheiro e o status de uma pessoa que herdou uma pensão vitalícia do pai, coronel morto nos idos de 1940, o qual construiu, ao longo de sua vida, um patrimônio milionário de imóveis, terras e outros investimentos lá no Sul. Dizem que a extensão das estâncias do velho chegava até o Uruguai.

Concorda agora que foram feitos um para o outro? Que era um casamento perfeito? Casamento, meus caros, no sentido de acordo, de toca-lá-dá-cá. Algo que se encaixa, preenchendo a lacuna existente no outro. Por outro lado, talvez ali nem existisse amor. Vou saber?

 

Tocando no assunto das brigas, João Miguel sempre presenciava as discussões. Já estava até acostumado com a ciumeira da mãe, pois na hora do pega, eles não estavam nem aí para o garoto. E num dia desses, passando pelo corredor da casa, o menino ouviu-os no quarto, quebrando o pau. Não conseguia distinguir as palavras, mas sabia que era mais uma costumeira rusga.

 

Ia seguir em frente, mas a porta se abriu e o pai saiu quase correndo, dando murros na parede. A mãe xingou uma palavra que até então ele não tinha ouvido. O menino caiu no choro, correndo na direção do lago, onde os animais nadavam.

 

Aquela reação era inusitada. A criança sempre presenciava as brigas, quieto, como se fosse surdo. Desesperado, o pai correu atrás, pegou-o no colo, apertou-o contra o peito, beijou-o, tentando conversar. Nada adiantava. A criança chorava inconsolavelmente, com os olhinhos fixos no lago, os bracinhos estendidos, como se quisesse abraçar os animais.

Pacientemente, depois de sondar muito, Pedro Paulo do pequeno:

- Eu vi vocês brigando. Oh papai, ouvi claramente...

 

(Sem exagero: a criança usou mesmo essa palavra. Falei pra vocês que ele era muito inteligente. Não falei?)

 

- ... ouvi claramente mamãe gritar...  – e soprou a palavra no ouvido do pai, olhando de esguelha para a pata com os filhotinhos que nadavam, fazendo ondas com os biquinhos na água.

 

O pai não conteve o riso. Dava gargalhadas. Não conseguia parar de rir. O menino olhou-o bem dentro dos olhos, sem entender e fez cara feia. Pedro Paulo ficou sério e tentou explicar de outro modo.

- Meu filho, sua mãe fica inventando coisas. A gente briga por isso, mas ela não vai fazer mal nenhum aos seus bichinhos não. A palavra que disse, filho, são coisas que sua mãe fica imaginando. Querido, patacoada não é matar a sua patinha e coar na peneirinha não. Patacoada é palhaçada. Sua mãe adora usar essa palavra.

 

(Só não disse para a criança que a palavra era do tempo em que se amarrava cachorro com corda, porque ainda não tinham inventado a corrente. E também que patacoada fazia parte do vocabulário de Pedro Álvares Cabral)

 

Sabe que depois do esclarecimento, a criança se tranqüilizou? Desceu dos braços do pai e ficou correndo em volta do lago, falando com os bichinhos. E acho até que de tão estranha que era a palavra, ele batizou a pata-mãe de patacoada.

 

 

                            

A ALEGRIA DO MEU VIVER

De todo o brilho

que resplandece no céu,

Você é o que me guia,

Que ilumina o meu viver.

 

De todas as alegrias

que enchem o meu coração,  

Você é a que transborda no meu ser.

 

De todas as bênçãos

que Deus concede a cada dia,

Você é a maior.

É a Glória que o divino criador fez

para me guiar,

Para não me deixar tropeçar nas armadilhas,

das crueldades de um mundo,

que não conhece o amor.

 

Por isso, por tudo isso,

Pelo amor que pulsa forte em meu peito,

Nesse meu coração apaixonado,

Jamais cansarei de proclamar ao mundo:  

Não consigo imaginar a minha vida sem você.

 

 

 

MAIS ESSA AGORA... MULHER PÉ-DE-CANA!!!

O casal não sabia preparar uma festa. Por essa razão, foi consultar um churrasqueiro, procurando sugestões sobre a quantidade de carnes e bebidas que deveriam comprar para determinado número de pessoas, de maneira que os convidados ficassem completamente satisfeitos.

O churrasqueiro, tentando ajudá-los, começou sondando as intenções dos dois.

- Quantas pessoas irão à festa?

- Umas 50 – respondeu a esposa.

- Todos tomam bebida alcoólica?

O marido esclareceu.

- Alguns tomam refrigerante! Mas os meus colegas de boteco, esses “detonam!”

- E vocês dois, bebem muito?

A esposa sorriu ligeiramente, meio sem graça, e começou a contar:

- Meu marido bebe pouco...

O churrasqueiro não deixou ela completar a frase:

- Isso é bom! O anfitrião não deve “encher a cara”...

Aí o marido caiu na gargalhada. O churrasqueiro, sem entender, franziu o cenho, no que a mulher esclareceu:

- Meu marido bebe 2 caixas de cerveja!

- E a senhora chama isso de “pouco”?

- O sr. não me deixou terminar de falar... quero dizer que meu marido bebe “pouco” menos que eu.

 

 

VICIADO? MEU FILHO?

Quando descobriu o fato, quando encontrou a “coisa”, o primeiro impulso da mãe foi procurar a polícia, o pai do guri, um psicólogo, sei lá! Mas era fim de semana. O pai estava viajando a trabalho, a polícia, bem... devia estar mais ocupada com outras coisas. Ou aquilo não era da competência da polícia. E psicólogo? Por mais que queiram aumentar o “faturamento”, não dão plantão  aos domingos.

Baratinada, ela caminhava de canto a canto da casa, a espera de que o filho de 14 anos aparecesse para lhe dar explicações.  Mas quando a campainha tocou e ela reconheceu pelo olho mágico a vizinha que recentemente mudara para o prédio: uma loura bronzeadérrima, top, deliciosa, 40 e poucos anos, que sempre encontrava com ela no elevador, a mãe percebeu que a solução veio até a sua porta. Nem deu tempo para a outra dizer o que queria. Foi logo desabafando:

- Tânia, querida, você que é mãe de adolescente também...

E contou à amiga o que havia descoberto. Em seguida, correram para o computador. 

A mãe tremia, completamente descontrolada. A loura afagava os seus ombros, tentando acalmá-la.

- Amiga, veja como aquele menino estava viciado em...

À media que a mãe ia mostrando as páginas que o guri acessava na  internet, os olhos da loura arregalavam-se mais e mais. Os seios esculpidos arfavam. Um calafrio, um rubor a ponto de arder-lhe as faces, tomava conta de si.

Poucos segundos depois, a campainha do apartamento soou novamente, o que fez a mãe dar um salto da cadeira e sair correndo. Esbarrando nos móveis, de tão atordoada que estava, foi atender à porta.

A loura voou para o computador. E numa agilidade quase sobre-humana, acessou diversos comandos, vasculhou pastas. E enquanto ouvia a voz da amiga conversando com alguém na sala, ia deletando as fotos comprometedoras dela, que pudessem por fim àquela amizade que se iniciara há poucas semanas.

 

 

Mas... vem cá! Chegaí!

Você pensa que a história terminou assim?

 

De repente ouviu-se o barulho de chave destrancando a porta. Passos na sala. Em seguida gritaria, tapas, objetos sendo derrubados... E sobrepondo-se a tudo isso, uma voz máscula implorando:

- Para mãe!... a senhora tá me machucando...

A loura correu para ver o que acontecia, ao mesmo tempo em que o adolescente fugia da mãe na direção do quarto. Os dois quase se chocaram no corredor. Mas o choque maior ficou por conta da surpresa. Era a primeira vez que a loura deliciosa e o guri de 14 anos se viam pessoalmente.

 

 

Saca essa!

Alguém andou dizendo por aí que loura é burra? Quem foi? rsrsrs

 

O TERREIRO DA BAIANA

Ele estava passando por toda sorte de problemas. Casamento desfeito, briga na justiça pela guarda dos filhos, dívidas, etc etc. O amigo, tentando ser solidário, resolveu dar uma força. Comprou um jornal com intenção de consultar uma financeira para conseguir um empréstimo pro outro, mas acabou esbarrando no seguinte anúncio:

VOVÓ MILAGRES DA BAHIA

Cartas, Búzios, Tarô. Trabalho garantido. Solução dos seus problemas. Experiência de 30 anos de terreiro...”

Após ler todo o anúncio, o amigo, empolgado, correu para o celular.

- Cara, encontrei a solução para os seus problemas!

E leu o anúncio para o colega, completando em seguida:

- Vou te levar nessa Mãe de Santo hoje mesmo!

Como já estava descrente de tudo, ele nem se empolgou.

- Vou nada! Não acredito nisso! E tem mais: essa mulher não resolve nem os problemas dela!

- Como sabe, se nem a conhece!

- Pense bem! 30 anos de terreiro! Nessa altura do campeonato, ela já não teria que ter mudado de vida?

- Como assim?

- Em 30 anos, ela ainda está no terreiro... não teria que já estar numa cobertura triplex ou num condomínio de luxo?

 

DOLOROSO SILÊNCIO

Ela teve que passar em meio à multidão de cabeça erguida, para não demonstrar o que se passava no seu íntimo. Sentiu olhares curiosos cravados em si, balbucios, cochichos, murmúrios. Mesmo assim avançava pelos corredores aparentando uma tranqüilidade que só Deus lhe deu forças para adquirir.

Ao chegar ao final de um corredor, onde apenas uma fresta de luz iluminava o pequeno espaço entre as paredes, virou-se e empurrou uma porta à esquerda. Entrou. E mais uma vez sentiu olhares curiosos analisando-a.

Tranquilamente, postou-se diante de todos. Corpo ereto, queixo erguido. Procurou as palavras adequadas que pudessem sair de sua boca sem que causasse mais choque, sem que provocassem mais tumulto além do que a situação já havia provocado dois dias atrás. Nada encontrou!

Na realidade, seus olhos não enxergavam ninguém. Fixavam-se num vazio tal qual o seu coração se encontrava, mas o som de uma voz que tentou se erguer num canto da sala, fê-la voltar imediatamente à realidade. Sem hesitar, ela a interrompeu:

- Nada aconteceu... quer dizer, tudo acontece na vida da gente. Se estou aqui hoje, é por que não tive coragem de ficar em casa. Meu marido morreu... ele quis assim, mas a vida continua. Vamos tocar o barco. Abram os seus livros na página...

Só Deus sabe o quanto foi difícil dizer aquilo para os seus alunos. Falar assim para pessoas que queriam somente lhe dirigir palavras de consolo pela perda.

Quando ela percebeu que todos os olhares, obedientes, se desviaram para procurar a página indicada, sentiu a solidariedade invadir toda a sala. Seus alunos tornaram-se cúmplices daquele silêncio de dor.

O NEGÃO DO FUSCÃO BRANCO

CIDADE PEQUENA TEM O SEU LADO FOLCLÓRICO, DE BOATOS, DE DISSE-ME-DISSE. E AS PESSOAS SE DIVERTEM COM ESSES BOATOS. NÃO ACREDITA? ENTÃO VEJA O QUE ACONTECEU NESSA CIDADEZINHA HÁ ALGUNS MESES ATRÁS...

 

Ela saiu de casa em pleno horário de verão, às 4h da manhã, embora fosse advertida, depois da boataria, para não fazer aquilo. Dirigiu-se para o ponto de ônibus. Sentou-se no banco da praça e ficou esperando o coletivo que nesse dia, não se sabe porque, demorou um pouco mais. Já estava bastante impaciente quando viu surgir um clarão no final rua. Deu graças a Deus. Era o ônibus! Levantou-se e fez sinal para o coletivo parar. O clarão foi se aproximando. Quando ela pôde divisar o veículo, o sangue gelou em suas veias. Parou ao seu lado um fuscão branco. Ela entrou em pânico. As pernas amoleceram e a voz sumiu, ao mesmo tempo em que viu descer apressadamente do carro um homem louro de uns 2m de altura, magro, cabelos quase raspados, sorrindo e esfregando as mãos, em sinal de contentamento. Ela tentou não demonstrar medo, mas se apavorou quando ouviu uma voz rouca convidar. 

- Entra aqui!

 

Ela tentou recuar. O homem agarrou-a com força, tapou a sua boca, arrastou-a para dentro do carro, trancou a porta e saiu em alta velocidade. Apavorada, ela implorou, tentando despertar compaixão.

- Moço, pelo amor de Deus, me larga! Estou indo arrumar a igreja pra missa das 6! 

 

Pisando mais fundo no acelerador e rindo, ele olhou-a pelo retrovisor interno e confessou com voz rouca:

- Negativo! É de beata mesmo que eu gosto!

Foi aí que ela entrou em pânico. E se apavorou ainda mais quando observou o velocímetro marcando 100km/h. O homem avançava feito louco pelas ruas estreitas. E no intervalo das risadas, anunciava.

- É hoje...

De repente surgiu na esquina um cachorro. Para não atropelar o bicho, o louro foi pisando levemente no freio e reduzindo a marcha, fazendo o veículo perder velocidade. Quando percebeu a proximidade do carro, o cachorro fez menção de atravessar, mas recuou, correndo em linha reta. O homem achou engraçado. E rindo e gesticulando pra fora do carro, berrou:

- Sai da reta, bicho feio!

 

O cão se assustou. Pareceu entender literalmente a ordem e desnorteado, saiu mesmo da reta, se atirando na frente do carro. Foi inevitável o choque. O freio cantou na madrugada e o animal foi arremessado longe. O carro rodopiou, parando a uns 100 metros adiante. O louro desceu e saiu correndo para ver o animal estirado na rua. A mulher, de tão aterrorizada, nem conseguia sair do lugar.

Ao ver o cão morto, o corpo do louro magro foi sacudido por convulsões. Grunhidos saíam de sua boca, enquanto ele abaixava a cabeça pra vomitar:

- Droga, nunca mais como carne...  

E se curvava a cada vez que as golfadas jorravam. 

 

A mulher assistia a tudo, sem saber o que fazer. O terror paralisou-a por completo, entretanto, milagrosamente, uma idéia surgiu em sua mente. Como o homem estava longe e de costas, ela abriu a porta do carro devagarinho, saiu agachada, pulou a cerca de uma casa e se escondeu no quintal de maneira que podia ver tudo o que acontecia. O coração saía pela boca.

De repente, no final da rua, surgiu o clarão de faróis de um outro veículo em alta velocidade. Ela estremeceu novamente, mas o pavor se transformou em alívio quando percebeu que era o carro da polícia. E o alívio se transformou em alegria quando o carro freou bruscamente atrás do fuscão branco. Desceram PMs apontando armas e gritando. O homem louro tentou fugir, mas acuado, parou, erguendo os braços.

 

Poucas horas depois uma nova fofoca batia nas portas das casas: o negão do fuscão branco foi preso na madrugada porque atropelou uma vaca e o carro capotou. Não! Não era uma vaca. Era um porco. Outros afirmavam que ele não agia sozinho. Tinha um comparsa, que escapou no meio do tiroteio. Teve até tiroteio! – dizia o povo, acreditam? O comparsa pulou o muro de uma casa abandonada e desapareceu misteriosamente no meio do colonião. Diziam que certa ele tinha parte com o demo porque sumiu como pó.

 

Enquanto isso, o Gerente de Banco, “lindo, louro e maravilhoso”, recém-transferido para a cidade, estava lá na cadeia, para quem quisesse conhecer o “negão do fuscão branco”. E a beata? Quem disse que ela abriu a boca pra dizer: essa boca é minha!?

 

 

 

CORAÇÃO APAIXONADO

Tardezinha!

Sol poente.

O gado passa mugindo,

Na carreira,

Levantando poeira.

O sino da igreja faz blém-blém-blém-blém...

Vou correndo, coração acelerado.

Vou voando, emoção transbordando.

Vou encontrar o meu bem.

O POR QUE? VAPT-VUPT SEM RESPOSTA

 

Ele foi ao supermercado. Encheu o carrinho de compras: lixa para unha, ração pro cachorro (na realidade aquilo era amendoim torrado com cobertura, que ele nem prestou atenção), tinta para o cabelo da mulher sem saber a cor que ela usava, ralo para a pia da cozinha, quatro saboneteiras de plástico, cada uma de uma cor, fraldas descartáveis pro caçula que já não usava mais fralda...

Comprou tudo que viu pela frente.  E saiu feliz da vida, em direção ao caixa, rindo pras paredes.

 

A caixa passou as compras, passou o cartão e pediu para ele digitar a senha. Meio de lado para ninguém ver a senha, ele digitou. Após alguns segundos, a garota discretamente informou. 

- Lamento senhor, mas o seu cartão está bloqueado!

 

Sem entender patavina porque o cartão estava bloqueado, ele arregalou os olhos e indagou a caixa:

- Por quê?

 

 

 

 

 

CAIU NA REDE

Na obra, no finalzinho da conversa ao celular, o pedreiro ouviu o encarregado falando o seguinte:

- ... o senhor vem aqui que te mostro o problema “in loco”.

O pedreiro saiu correndo, atropelando os trecos da construção, na pressa de corrigi-lo.

- Paulo, já não se fala mais in loco. Com a linguagem da Internet, agora é “em tempo real”.

E o encarregado da obra, o Paulo:

- Pô, demorei aprender a falar in loco e agora já não se usa mais?

O pedreiro argumentou, todo orgulhoso.

- A Internet está revolucionando tudo! A gente tem que ficar up-date!

De olhos arregalados, o encarregado interrogou-o:

- q? q?   

 

CANSOU DE OUVIR? AGORA LEIA!

 

Atire uma letra do alfabeto, quem nunca ouviu nenhumazinha dessas...

 

 

01 - Prefiro não comentar.

 

02 - Bebida e direção não combina (aqui também não combinou a concordância verbal).

 

03 - O Brasil é um país rico. O problema é a falta de administração.

 

04 – Friozinho na barriga.

 

05 – Professor ganha pouco.

 

06 – Começar com o pé direito.

 

07 – As crianças são o futuro do Brasil.

 

08 – O ônibus está lotado igual sardinha na lata.

 

09 – Mulher dirige mal.

 

10 – Homem é mulherengo.

 

11 – Sogra não presta.

 

12 – Ah!... esse tal de SUS!

 

BOCA LIVRE

Cidade pequena! Quem nunca ouviu falar da vida dos outros? Falar mal também. E quem não quer dar carne pro gato, pisa em ovos. Não foi o que Mariana fez. Ela deu carne pro gato. Deveria ter dado peixe, o prato predileto do bichano. E pisar em ovos... bem, ela aproveitava era para saborear alguns, quando ia à casa de alguém.

Sempre chegava na hora do almoço. A pessoa ficava sem graça com a visita inesperada e acabava oferecendo o rango. Acho até que a “convidada” nem fazia comida em casa. Embora fosse boca livre, ela sempre dava um jeitinho de escolher o que comer. Querem ver? Não gostava de jiló. Um dia chegou à casa de uma amiga e jogou verde:

- Candinha, você que come mais legumes, fez jiló hoje, bem?

- Tá doida? Nem morta! Odeio jiló!

Era tudo o que Mariana queria ouvir. Deu graças a Deus. Também odiava, mas o pior é que não conseguiu fazer boca de siri (manter segredo).

- Eu também! Se for pra comer jiló, prefiro morrer de fome!

Candinha já estava de olho nela. A notícia já tinha se espalhado mesmo. E Mariana, como marido traído, ainda não sabia que já tinha caído na boca de Matilde. A vizinhança resolveu armar pra cima dela. Acabar com aquele venha a nós.

No dia seguinte, foi à casa de outra pessoa. Mal entrando, foi logo dizendo:

- Penha, tô sentindo um cheirinho de alho. Você coloca alho no feijão?

- Coloco! Adoro alho!

Foi sorte. Ela também gostava de alho. Mas passado algum tempo, armaram um plano que Mariana caiu como um patinho.

Chegando numa outra casa, logo de cara sentiu um cheiro de carne assada. Degustou mentalmente um pernil recheado, suculento e chegou a salivar. Alguns instantes depois, Filomena , a dona da casa, convidou:

- Mariana, vamos almoçar?

Lá se foi ela, pensando no pernil. Quando entrou na cozinha, o cheiro estava mais intenso. Ela sentiu até o calorzinho do forno, de tão perto que estava, e mais uma vez degustou mentalmente a carne saborosa e suculenta. Filomena abriu o forno ostensivamente. Olhou o assado ali dentro, demoradamente, fazendo cena, penetrando-o com a ponta de um garfo. Tornou a fechar o forno, contando:  

- As professoras da minha escola vem jantar aqui hoje. Você acha que pernil assado pega bem?

- Bem demais! Hum... tô até sentindo o gostinho...

- Ah desculpe, querida, o pernil ainda não está pronto. Improvisei um almoço pra nós duas. Não tive tempo de fazer muita coisa, não repare! Vou caprichar é no jantar. Ainda tenho que elaborar uma prova, já viu? Professora... senta, amiga!

Ela sentou. Filomena se voltou para tirar da geladeira o almoço.  Mariana arregalou os olhos gulosos quando viu. Era uma vasilha redonda com folhas de alface verdinha, fazendo um círculo. No centro, arroz, pedacinhos de abacaxi, presunto defumado e passas. Aparentemente uma deliciosa mistura.

- Mariana, pega prato pra nós duas aí no armário!

Ela pegou. Quando a professora começou a servir o arroz, ela percebeu que havia algo estranho no meio, bem picadinho. Um legume verdinho.

Sem dó, a professora encheu o prato da “convidada”. Quando Mariana começou a comer, as tripas reviraram. A coisa era amarga como fel. Era o tal do jiló que ela tanto odiava, disfarçado no meio dos outros ingredientes, mas o bastante para estragar o sabor de qualquer prato.

Não tenho certeza da quantidade ou o que ela comeu. Acho que ficou catando feito galinha. Agora, perguntem pra mim se ela parou com essa mania de aparecer na casa dos outros na hora do almoço? Te respondo que naquela casa, ela nunca mais botou os pés, mas nas outras... ah, sei lá!

PRA DIZER QUE TE AMO

 

Eu canto

E não sei se o meu canto

É encanto.

 

Mas que importa?

Se só quero que saibas.

Que o que sai do meu coração,

São palavras proferidas

Para confessar o meu amor por ti?

 

 

 

 

PÂNICO NOS BANCOS

- A senhora presenciou o fato! Poderia nos contar como tudo aconteceu?

- Vi quando ele entrou. Era um homem alto, bem vestido, louro. Passou no meio das pessoas, andando para a frente. Quando ficamos sabendo que era um assalto...

- Fale mais um pouco da sua entrada.

- Minha entrada?

- Não, do homem!

- Ah! sim... como disse, estava bem vestido, elegante. Entrou bem seguro. Uma pessoa que ninguém imaginava que fosse um assaltante.

- Acima de qualquer suspeita!

A mulher ri da frase do Delegado, justificando:

- Até parece título de filme ou de livro o que o senhor acabou de dizer. 

O Delegado também sorri.

- Notou se ele carregava alguma coisa?

- Aparentemente, nada!

- E...

- Ele caminhava determinado, como eu disse. Quando chegou na frente, virou-se e gritou: “ninguém se mexe, é um assalto”.

- Que aconteceu em seguida?

- Gritaria! Todo mundo entrou em pânico! Vi gente desesperada, correndo para a porta, o pânico no rosto das pessoas, o pânico nos bancos. Um tumulto danado na igreja, Delegado! Gente desmaiando... E na confusão, mais assaltantes entravam armados pelas portas laterais. 

-          E...

- Pegaram todo o dinheiro da oferta, Delegado! Todo! E saíram correndo, dando tiros pro alto!

 

 

  

 

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