Idealista e visionário desde criança, sonhava com uma sociedade igualitária...
DIÁRIO DE UM PERALTA – 6ª parte
OS MEUS AMIGOS
- CADUCO
Em plena ditadura, Caduco, visionário desde os tempos de criança, entrou para um partido comunista. Nessa época, eu já estava com mais de 20 anos e morava num outro bairro com mamãe. Todo mundo evitava falar do meu pai, mas eu sabia que ele estava preso por ter assassinado um homem no dia em que a nossa casa foi destruída. Eu sentia muita falta dele. E ficava imaginando como devia estar sofrendo, até passando fome. Via-o em casa, nos bons tempos de infância, com aquele pires cheio de pimenta vermelha, o suor escorrendo da sua testa... Sentia vontade de chorar. Só não o fazia porque sempre soube que homem não chora.
Voltando a Caduco, seus colegas de partido aproveitaram a nossa casa em ruínas, a qual foi destruída por manifestantes na 2ª Guerra Mundial, e se reuniam no porão. Eram reuniões clandestinas, que tinham como objetivo derrubar o governo e tomar o poder, dando ao povo o que lhes era devido, afirmavam. Ficaram meses ali, debatendo estratégias, angariando idealistas, até que agentes do governo descobriram tudo e os prendeu. Fiquei sabendo que eles foram amarrados, jogados numa carroceria de caminhão e o destino de todos, só Deus sabe. Desapareceram. A namorada de Caduco, que a considerei uma traidora na época, evitava até falar o nome dele. Agora a entendo e sei que era por medo. Ninguém dizia nada. Ninguém sabia de nada. No rádio só se ouvia aquelas músicas que eu dizia ser de “revolução”. Coisas patriotas, discursos... E a Ditadura ganhava força no Poder.
Hoje, sentado no banco da praça onde brincávamos, onde fomos tão felizes na nossa infância, eu olhava as montanhas ao longe, via os carros passando, carros que nos tempos de criança dizíamos ser de brinquedo... Olhava os carros ao longe, sumindo na estrada, na cadeia de montanhas e imaginava Caduco amarrado, jogado como se fosse um saco de batatas na carroceria de um caminhão, tomando um destino que só Deus sabe qual. Essa foi a imagem que criei quando soube da prisão. Essa imagem ficou incrustada na minha mente.
Será que mataram Caduco?
Continua...
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....era o mais divertido de todos... andava de cabeça pra baixo, apoiando-se nas maos...
DIÁRIO DE UM PERALTA – 5ª parte
OS MEUS AMIGOS
- CABRITO
Tinha esse apelido porque vivia dando cambalhotas, fazendo acrobacias, andando de cabeça pra baixo. Ele era a nossa diversão na praça, quando não estávamos aprontando outras. Infelizmente, na adolescência, Cabrito já estava enveredado na bebida a ponto de até perder, literalmente, o rumo de casa. Entrava em qualquer casa que encontrasse a porta aberta, pensando que fosse a sua. E nessa época eu já não morava mais ali. Havíamo-nos separado, o que deixo pra contar depois.
Cabrito morreu no Canal de Suez em 1956, quando o presidente egípcio Gamal Nasser iniciou um conflito ao nacionalizar o canal e impedir a passagem de navios israelenses*. A ONU recrutou soldados brasileiros para o conflito e Cabrito estava entre eles. Foi convocado para integrar as Forcas de Paz e ficou lá no oceano mesmo. Mas não pensem que foi em combate, porque não houve troca de tiros entre israelenses e egipícios, nem ataque de piratas. Como ele bebia muito, era muito engraçado e tinha mania de dar cambalhotas, dizem que ao embarcar, foi logo travando conhecimentos com os outros convocados. Encheram a cara! E na farra, Cabrito começou a fazer peripécias. Saiu dando cambalhotas no convés, atravessando o navio de ponta a ponta, sob os aplausos dos colegas, todos caindo de bêbados. Dando saltos mortais, Cabrito não viu o fim do convés. E num último salto, não houve mais espaço para ele retornar. Caiu no mar e desapareceu instantaneamente. Era madrugada. Os salva-vidas tentaram resgata-lo, mas não conseguiram encontrar o corpo. Dizem que ele caiu numa área perigosa, de ondas gigantescas, que a água estava gelada, que não enxergaram nada, era uma região infestada de tubarões...
Enfim, acho que algum tubarão fez um banquete de Cabrito.
*Fonte: Google
No capítulo 6...
Você vai conhecer o meu amigo CADUCO... Visionário e idealista, queria uma sociedade igualitária...
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Nada acontecia sem que os cinco estivessem juntos,... mas tudo mudou quando me separei dos meus amigos, quando tivemos que fugir para a Colônia Germânica...
DIÁRIO DE UM PERALTA – 4ª parte
OS MEUS AMIGOS
- CHUTE
Éramos cinco amigos. Eu, Zuza, Chute, Cabrito e Carlos Eduardo, o Caduco. Chute era meu primo, filho do tio Kurt. E tinha o apelidado por causa do sobrenome alemão Schutz, que ninguém sabia pronunciar direito. Eu tinha seis anos e não podia estudar no Grupo Escolar antes de completar sete, por isso fui matriculado numa escola mantida pela nossa comunidade evangélica luterana. Lá aprendi rapidamente a ler e escrever. Chute também tinha a minha idade e éramos da mesma classe. Nós não queríamos nada com a língua, a não ser esticá-la pra Cabecinha de Fubá - um menino lourinho que se sentava no fundo da sala com medo porque um dia nós o surramos até o sangue jorrar do nariz do coitado. Ele contou para a professora que nós havíamos copiado o Hausaufgabe* de outro colega, o que nao era mentira. Mexíamos com ele quando a professora, uma senhora de cabelos pretos, presos em forma de coque, ficava de costas. Quando ela se virava, pronunciando as palavras em alemão, ríamos baixinho, cutucando um ao outro. Ela ficava meio sem graça. Às vezes chamava a nossa atenção. Outras, fingia não ver as nossas macaquices.
Chute se casou. Foi pra São Paulo. Nunca mais deu notícias. Nessa época, já havíamo-nos tornado inimigos de morte. A alemãzinha de 14 anos, que ainda brincava de boneca - Thresse Kleiner, foi o motivo da discórdia.
- ZUZA
Era o Maria-vai-com-as-outras, um negrinho de oito anos, engraxate. Tudo que a gente mandava fazer, ele fazia sem pensar duas vezes, rindo, com aquele nariz sempre escorrendo, lambuzando o lábio superior. Ninguém comia nada das mãos de Zuza. Ele morreu muito cedo, antes mesmo de completar 11 anos. Tinha bronquite. Só me lembro de Zuza em meio à bagunça, rindo, correndo, aprontando como todos nós o fazíamos, mas na verdade, quem tomava a iniciativa das brincadeiras era eu. Os outros sempre concordavam.
*Para Casa
No capítulo 5...
Você vai saber porque o meu amigo tinha o apelido de Cabrito.
E no http://dulcineia.blogspot.com, uma história de amizade e solidariedade. Não perca MIRTES.
Veja o que o tio Kurt fez comigo, escondido dos meus pais, numa tarde em que ele foi à nossa casa.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 3ª parte
- O TIO KURT
Meu tio, o irmão mais velho que mamãe, era carroceiro. Fazia transporte de cereais para o mercado e vendia lenha cortada por ele mesmo na mata, para as famílias do bairro. Quando passava na carroça, ficava mexendo com as mulheres, jogando beijos. Às vezes elas riam, às vezes xingavam. Havia algo no comportamento do meu tio que eu, mesmo sendo criança para entender, não aprovava. E ele não gostava de mim pelo seguinte: Um dia, já quase noite, quando eu vinha subindo a rua, vi-o pular da carroça, acender um cigarro de palha e ficar ali, parado, como se estivesse esperando alguém. Quando veio passando uma babá, ele correu e abraçou a menina, que não fugiu. Pelo contrário, ela pareceu gostar. Corri para o outro lado da rua e gritei:
- Dá o pé, louro!
O meu tio era bem louro e de olhos azuis. E odiava que a a gente falasse dá o pé louro com ele. Correndo, gritei isso bem alto e ameacei:
- Vou contar pra tia Dalva!
Ele levou um susto e largou a menina.
E contei mesmo. Tia Dalva ficou um tempão de mal com ele. E ele ficou danado comigo. Toda vez que me via, queria me pegar, mas eu era mais esperto e fugia.
Um dia o tio chegou lá em casa de supetão. Eu estava sentado à mesa desenhando, quando o vi entrando e olhando diretamente pra mim. Quis fugir, mas meus pais estavam ouvindo rádio na sala e sempre me diziam que era falta de educação sair quando alguém chegava. Fui obrigado a ficar.
Tio Kurt cumprimentou todo mundo e foi logo sentando perto de mim:
- Vamos jogar vareta, Beto?
Era uma brincadeira na qual consistia em espalhar um monte de varas sobre a mesa e o adversário tentar tirar uma sem mexer as outras. Se mexesse, perdia e dava a vez para o outro. Pois bem, ele sentou e pisou com forca no meu pé, com aquela pesada bota que usava para entrar na mata. Começamos a jogar. Eu quase morria de dor, mas não podia reclamar. Quando fazia menção de puxar o pé, aí é que ele apertava mais. A dor era insuportável. Tentando me libertar, sugeri.
- Mamãe, faz suco pro tio. Ele tá com sede!
- É mesmo! Cabeça a minha... aceita um suco de graviola, Kurt?
- Não, Lídia! Prefiro jogar com o Beto. Tá tão bom o jogo, não é, Beto?
Eu mal consegui balançar a cabeça de tanta dor. Estava quase chorando. Por sorte, o meu pai me salvou, dizendo:
- Deu vontade de chupar pitanga... Beto, pega pitanga no pé pra nós.
Tio Kurt teve que liberar o meu pé. Quando saí, perceberam que eu estava mancando. Mamãe entrou em pânico.
- Meu Deus, ele está com o pé vermelho e inchado. Deve ter se machucado. Beto, deixa ver esse pé, menino!
Depois dessa, o tio Kurt inventou uma desculpa e se mandou. Saiu quase correndo da nossa casa. Essa foi a vingança por eu ter contado a tia Dalva que ele ficava mexendo com as mulheres na rua.
No capítulo 4...
Você vai gostar de conhecer os meus amigos inseparáveis: Chute (meu primo), Caduco, Zuza e Cabrito.
E em Dulcinéia, uma história comovente sobre o Prof. Galvão. Acesse http://dulcineia.blogspot.com
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