Havia nas nossas brincadeiras de infância o lado folclórico... E até os adultos se divertiam.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 8ª parte
- MASCARADO PACO-PACO
Inventamos a brincadeira por acaso. Numa noite de verão, tivemos a idéia de sair os cinco fantasiados de molambentos, de maneira que ninguém reconhecesse a gente. Isto provocou uma reação nas pessoas bem maior do que esperávamos. A brincadeira agradou logo de cara. Quando passávamos pelas ruas, a criançada delirava gritando:
- Mascarado-paco-paco comedor-de-carrapato... mascarado-paco-paco...
Tentando descobrir quem estava fantasiado, corriam atrás de nós, procurando evitar as pauladas, pois ameaçávamos agredir quem chegasse mais perto. Enquanto isso, ouvíamos a meninada em coro:
- Mascarado-paco-paco comedor-de-carrapato... mascarado-paco-paco...
O apelido pegou! E naquela noite, até os adultos gostaram da folia. Foi uma verdadeira farra. A gente estava mesmo irreconhecível e a curiosidade não tinha limites. Meu Deus... hoje (setenta e tantos anos depois) penso que nunca me diverti tanto em minha vida.
Três dias depois de perambularmos pelas ruas fantasiados, a brincadeira já tinha virado notícia na vizinhança toda. E no quarto dia, quando eu estava no quintal dando milho para os porcos, mamãe me chamou:
- Beto, tem uns meninos lá fora querendo falar com você!
Calculei que alguém queria brigar comigo. Tratei de me defendendo.
- Não fiz nada! Estão querendo me bater, mamãe?
Ela brincou.
- Tá com medo? Eles não parecem querer brigar não!
Atravessei correndo o corredor e fui ver os meninos. Quando cheguei na frente da casa, deparei com um montão de barulhentas crianças, armados de pedaços de paus, roupas velhas, molambos, outros sentados no meio-fio... Até Cabecinha de Fubá, aquele dedo-duro que nós demos porrada nele, estava no meio. Um deles tomou a frente do grupo e foi logo pedindo:
- Beto, deixa nós entrar na brincadeira de mascarado-paco-paco...
O tom de sua voz era de súplica e isto me fez ver que a brincadeira tinha sido mesmo um sucesso. Me senti importante. Então determinei.
- Cabecinha de Fubá, vai chamar os meus amigos! Vou resolver com eles! Eu sou o chefe, mas vou resolver com eles!
O menino saiu correndo, gritando satisfeito, agora sem mais demonstrar medo de mim. Não demorou nada, Caduco, Zuza, Chute e Cabrito estavam reunidos conosco na praça. A euforia era geral. Eu subi num banco e comecei a explicar a brincadeira. A molecada se coçava de vontade de se juntar ao grupo para à noite percorrer as ruas assustando o povo.
Por fim, dei as explicações necessárias. O mascarado tinha que estar irreconhecível e usar um cabo de vassoura ou pedaço de pau para se defender de alguém que quisesse arrancar a fantasia. O grupo não devia chegar junto nas ruas, cada um ia aparecendo devagarinho, nas esquinas, nos escuros... assim a brincadeira ficaria mais emocionante. Ninguém deveria saber de onde surgiam os mascarados-paco-paco. Expliquei tudo direitinho. Para encerrar, perguntei:
- Entenderam?
Um menino de uns 8 anos, vendedor de doces, falou:
- Nós entendeu!
Gritei com ele, com raiva, pulando do banco.
- Você não vai entrar na brincadeira não! Não sabe nem falar direito!
O menino abriu a boca num berreiro, correndo pra trás de uma árvore. Cabrito deu um salto mortal e com mais dois saltos, estava de frente com nós entendeu. Passou o braço direito em volta dos seus ombros magros e com um dedo da mão esquerda, tocou o seu queixo aconselhando:
- Chora não, neném!
Todo mundo caiu na risada. E aí é que o menino chorou mais, escondendo o rosto atrás da árvore.
Chute cochichou comigo:
- Beto, melhor deixar esse chorão entrar. Se ele mentir pra mãe dele que batemos nele, a gente leva surra.
Ouvindo isso, Caduco correu até o menino e quase fez um discurso:
- Menino, você vai entrar na brincadeira sim! Todos têm o direito de ir e vir. Esse direito não pode ser negado a ninguém. Ninguém mesmo, tá bom, meu camarada?
Alguém entendeu que direito era aquele? Claro que não! Mas foi dito por Caduco, o mais estudioso de todos nós, e isso fez a felicidade do menino, que agora caiu na risada, dando saltos de alegria.
Assim, nas noites de verão, os mascarado-paco-paco comedor-de-carrapato saíam dos becos, das ruas, pulavam dos muros, assombrando todo mundo. A gente sentia o terror estampado nos rostos das meninas, sentia a emoção das pessoas, o riso, a alegria, uma emoção indescritível. Quando cansávamos de correr, de lutar, de fugir, deixávamos que nos tirassem a fantasia. O delírio era geral quando reconheciam o (des)mascarado.
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Uma figura caricata que perambulava pelas ruas... não mexia com ninguém, exceto pelo seu próprio jeito de ser já mexer com as pessoas.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 7ª parte
- T O R Q U A T O
Havia um mendigo no nosso bairro, o Torquato. Imundo, esfarrapado, cabelos desgrenhados, dentes estragados, se é que havia dentes ali. Um interminável sorriso nos lábios e palavras na boca, emboladas e inaudíveis, que ninguém fazia questão de entender. Dizem que ele ficou assim, perturbado, de tanto ler. Era de família rica, afirmavam. No passado, era muito inteligente e estudou tanto que acabou perdendo o juízo. Cada um tinha uma versão diferenciada de Torquato, mas o consenso era que ele nao fazia mal a ninguém. Para mim, naquele tempo... agora percebo que o mistério envolvia a figura do mendigo. Hoje, mais de seis décadas depois, muitos vivem na miséria como Torquato vivia. E ninguém chega sequer a conhecer a sua história, folclórica ou não.
Um dia o vimos comendo do lixo. Ele nos chamou. Ficamos receosos, mas nos aproximamos curiosos porque ele nos mostrou umas frutas vermelhas, que a gente não conhecia, semelhantes a tomate, as quais ele comia com ar de quem estivesse gostando muito. Torquato esticou a mão nos oferecendo. Recusamos. Ele insistiu. Por fim, pra demonstrar que tinha coragem de comer do lixo, desafiei os meus colegas. Começamos a comer. Torquato nos disse:
- É caqui... é gostosa...
Concordei com ele. A fruta era mais deliciosa do que se podia imaginar e era a primeira vez na minha vida que eu comia caqui.
Mamãe voltava do armazém naquele momento e me viu comendo. Avançou contra mim, dando tapas na minha cara. Comecei a gritar, correndo pra casa. O sangue escorria... de repente percebi que havia algo mais além de sangue na minha boca e bem menor que a semente do caqui. Cuspi. Eram dentes.
Esta foi a maneira como os meus dentes-de-leite foram extraídos.
(Às vezes eu achava que mamãe não gostava de mim. Ou eu mesmo não gostava de mim? Vivia aprontando e levando surras... Ela era seca, não demonstrava muito carinho, mas era mãe e esposa superdedicada. Acho que o seu jeito seco vinha da sua cultura. Era descendente direta de alemães. E os alemães da minha infância eram bem diferentes de nós brasileiros).
C o n t i n u a...
O compromisso e o descompromisso das brincadeiras de criança em MARCARADO PACO-PACO... 8ª parte
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