Esta é uma página em branco da minha vida. Não, não pensei que me entreguei às drogas, à perdição, ou sei-lá-que-mais. Naquela época, se existiam drogas, não chegaram a mim. Fato é que a minha mente não sedimentou de imediato as rápidas mudanças ocorridas nas últimas horas.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 15ª parte
- LOUCURA
Tudo mexeu com a minha cabeça. A fuga da nossa casa, a prisão do meu pai, a tarefa de cuidar da horta, ter que ter contato com o tio Kurt, que na certa ia arrancar o meu couro, a espingarda, arma que eu nunca havia nem tocado. Tudo.
Assim, com a cabeça abarrotada, pensando no meu pai, naquela noite não consegui dormir. Meus olhos não despregavam da espingarda sobre uma cômoda do quarto, mas quando me cansei, fechei-os. Longas horas depois, ouvi o canto dos pássaros. O dia clareava. Levantei, tonto de sono. A cabeça doendo. Naquele quarto, tudo me pareceu estranho, sem sentido. Sem pensar no que fazia, peguei a espingarda. Mirei a janela. Disparei. Corri para fora gritando, disparando, enlouquecido. Eu mesmo assustado com o barulho dos tiros. Todos se levantaram alarmados, sem saber o que estava acontecendo. E eu continuei atirando, gritando e correndo pelo quintal da fazenda. Quando conseguiram me segurar, já não haviam mais balas na espingarda e nenhum sentimento no meu coração.
Senti alguém me abraçando, sufocando o meu rosto contra o peito. Era mamãe. E vozes desesperadas clamavam pelo Senhor.
- Meu Deus! Beto ficou doido!
A voz do meu avô sobressaiu-se a todas:
- Precisamos dar um jeito... Vou ao Internato providenciar isso agora!
E vovó:
- Fritz, a cidade está um barril de pólvora. Você corre risco de vida. A guerra... os manifestantes...
A voz do meu avô retrucou com conficção.
- O Senhor é comigo! Vou na fé! Onde eu estiver, Ele estará comigo!
Deu meia volta, subiu no cavalo. Em seguida, na estrada só se via a poeira vermelha levantando. Ninguém disse mais nada e encaminhamos para a casa. Eu agarrado no vestido de mamãe, assustado comigo mesmo, e vovó abraçada com ela.
Em suma, eu disse que era uma página em branco da minha vida? Acabei contando tudo. E esse tudo foram uns 6 anos que passei no Internato. Aí sim, minha vida mudou radicalmente. Lá não havia peraltices. Havia castigos, disciplina, muito estudo. Quando retornei à fazenda, já estava com uns 15 anos.
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Aqui começou uma etapa diferente na minha vida, na qual adquiri responsabilidades de uma pessoa adulta.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 14ª parte
- O PRESENTE
No dia seguinte o meu avô disse.
- Beto, presente pra você!
Saí correndo, louco de curiosidade. Afinal, uma boa notícia depois de tanta tragédia, mas a surpresa foi grande quando o meu avô me entregou uma coisa pesada, embrulhada com papel cor de terra (antigamente não existiam esses papeis coloridos, cheios de desenhos). Quando peguei o objeto, era pesado o suficiente para cair da minha mão, se eu não tivesse me curvado para equilibrar o peso. Quando abri, tive uma surpresa. Era uma enxada.
O meu avô ainda disse.
- Amanhã você vai com o seu tio Kurt para a mata cortar o cabo da enxada. Você vai cuidar de uma horta de verduras. Aqui na fazenda, todos comem com o suor do rosto.
Disse isto com sotaque, atropelando as palavras, mas com tranqüilidade. Eu assenti, enquanto observava meu tio Kurt sorrindo para mim com ar de vitória. Ele não gostava de mim e agora sentia prazer eu me ver agora com responsabilidades. Cogitei jogar a enxada no pé dele, quando a voz do meu avô me desviou do meu instinto violento.
- Tem outro presente!
Virou-se e foi até um cômodo da casa, que permanecia sempre trancado. Voltou com uma espingarda.
- Isto é pra caçar, mas servirá para nos defender também, se algum invasor de guerra tentar entrar nas nossas terras.
E assim estava eu diante de uma realidade bem diferentes das brincadeiras na praça com a molecada.
Uma notícia que mexeu com toda a minha vida. Todas as minhas emoções. Todas as minhas alegrias.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 13ª parte
- A PRISÃO
Assim fiquei sabendo que no dia da destruição da nossa casa, meu pai fora preso. Ele se envolveu numa briga de bar e acabou esfaqueando um homem. Saiu do bar algemado, envergonhado, de cabeça baixa. Estava agora na cadeia. Fiquei chocado. Eu morria de medo de soldado. E fiquei imaginando o meu pai nas mãos daqueles negrões fortes, maus, dando chutes e socos nele.
Parece-me que a briga foi por causa de uma mulher.
Eu perguntava a mim mesmo: será que a mulher causadora da briga era aquela do portão, daquele dia que saí com mamãe e os vi? A mesma do neném?
Só sei que depois da invasão da nossa casa, da guerra e da nossa mudança para a Colônia Germânica, nunca mais vi o meu pai.
Será que ele morreu? Ninguém tocava no assunto. Nem mamãe. Muito menos os meus parentes, que não gostavam dele por ser negro.
Foi doloroso para todos nós aquele dia...
DIÁRIO DE UM PERALTA – 12ª parte
- A NOTÍCIA
No dia seguinte, estávamos tomando o café da manhã quando ouvimos o trotar de um cavalo se aproximando. Vimos a poeira subindo na estrada, quando o cavaleiro se aproximou. Era um colega de serviço de meu pai. Ele abriu a cancela e de longe mesmo gritou:
- Frau Lídia!
Mamãe foi atendê-lo. O rapaz desceu apressadamente e gesticulava muito, falando sem cessar. Nós permanecemos sentados à mesa, observando através das janelas do casarão, quando vimos o corpo de mamãe se agitar, agarrando violentamente a sela do cavalo. Gritos alucinados saíam da sua boca. Meus avós correram. Corri também. Mamãe tremia, sem largar a sela, ao mesmo tempo em que o corpo escorregava para o chão. Corri pra junto dela chorando:
- Que foi, namãe?
- Beto... meu filho... seu pai... foi preso!
Após essas palavras surgiu um tumulto. Meus avós aproximaram mais. Eu abracei-a com força, chocado com a notícia e por nunca tê-la visto naquele estado, quando repentinamente ela se desvencilhou de mim e subiu no cavalo, puxou a rédea e fez menção de sair. Meu avô pulou na frente do animal, segurando o seu pescoço. Desesperada, mamãe pediu:
- Deixa eu ir lá, papai! Pelo amor de Deus...
Vovó arrancou de suas mãos as rédeas e determinou:
- Desça daí, Lídia! Ficou doida? Esqueceu a sua raça? Estão destruindo tudo que é dos alemães. Quer morrer?
Por um momento eu a vi sucumbir; as lágrimas escorriam dos seus olhos, ao mesmo tempo em que pareceu refletir. Minha avó gritou:
- Desça daí! Agora!
Mamãe obedeceu. Desceu lentamente. Vovó abraçou-a e juntas seguiram para dentro da casa. Vovô me deu a mão e disse algo em alemão. Não entendi, mas senti que eram palavras para me consolar.
Foi um dia de terror. Jamais me esquecerei de como o pânico tomou conta de mim.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 11ª parte
A DESTRUIÇÃO
- 2ª Guerra Mundial.
Uma multidão se aglomerou na praça, apontando para a nossa casa. Em seguida começou a descer, armados de paus e pedras. Mamãe e meus avós, que estavam lá no momento, me arrastaram e corremos para o porão. Nos escondemos. De lá, podíamos ouvir o barulho de coisas sendo quebradas, vidros estraçalhados, os potes de conservas sendo jogados no assoalho da cozinha. Eu estava apavorado. Mamãe tapou os meus ouvidos e escondeu o meu rosto com o avental. Em meio ao tumulto, uma voz sobressaiu-se às outras, sugerindo:
- Vamos botar fogo na casa!
Alguém contra-argumentou:
- Não! Pode incendiar as outras casas!
Não sei dizer exatamente quanto tempo permanecemos escondidos, mas quando saímos, perguntei a mamãe sobre tudo aquilo. Ela simplesmente disse a frase como se estivesse falando com um adulto:
- A Alemanha está em guerra!
E continuou falando com meus avós em alemão, da maneira como eles sempre se comunicavam. Meus avos falavam muito mal o português.
Fiquei calado, observando-os, enquanto pensava onde era a Alemanha. E a guerra, o que significava a guerra?
Entramos cautelosamente no que restou da casa. Mamãe, com a sua costumeira agilidade, pegou algumas roupas. Meus avós correram ao quintal e atrelaram o burro à carroça. Não vi em nenhum deles uma lágrima ou um lamento sequer pela destruição. Já deviam estar acostumados com o caos porque vieram da Alemanha fugindo da Recessão. Ninguém abriu a boca pra dizer palavra. Fomos para a fazenda de uns parentes que também já haviam sofrido ataques e estavam tão amedrontados quanto nós, na Colônia Germânica, um lugarejo onde viviam os alemães e seus descendentes. Naquele dia, saímos às pressas da nossa casa, toda destruída, para nunca mais voltar. Chorei com o pressentimento de que não veria mais os meus amigos das bagunças com Maria Margarida, das brincadeiras na praça... As lembranças se misturavam em meio a toda a destruição. Chorava, enquanto a carroça nos sacolejava como se fôssemos sacos de cereais indo para a feira, junto de um casal de gansos, os mais velhos do bando que mamãe criava.
Atrás vinha o tio Kurt, tia Dalva e Chute. Eles mantinham distância por causa da poeira vermelha que subia pela estrada, mas estávamos juntos no mesmo propósito: fugir da guerra.
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Ainda era criança para entender a situação, mas tinha certeza de que havia algo errado quando vi novamente aquela mulher.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 10ª parte
- A VISITA INESPERADA
Alguns dias depois, a mesma mulher, com uma criança nos braços, chegou no nosso portão. Mamãe foi atendê-la. Depois de conversarem por longo tempo, mamãe entrou de cabeça baixa e foi para o quarto, fechando a porta. Eu a ouvia chorando baixinho.
À noite, quando meu pai chegou, mamãe se trancou com ele e ficaram discutindo. Eu podia ouvir as vozes alteradas no quarto. Cheguei a encostar o ouvido na parede, mas não pude distinguir o que falavam. Quando os vi sair, parecia que mamãe havia chorado novamente e meu pai estava bastante sem graça. Ela estava com os olhos e o rosto vermelhos. Ele evitava me olhar.
Meus pais tinham o hábito de conversarem escondido de mim. Naquele dia eu queria tanto saber o que eles conversaram, queria ter ouvido tudo.
No dia seguinte, mamãe arrumou as nossas malas e fomos para a fazenda da irmã dela. Adorei, apesar de estar longe de meu pai. Eu estava com tudo que queria, ficar sem ir à escola.
E quando eu já estava começando a sentir saudades, ele apareceu. Chegou de mansinho, meio sem graça, como naquele dia da briga dos dois, e conversou timidamente com mamãe. Saíram da casa. Fiquei na varanda. E de lá eu os via andando pelo cafezal. De repente vi mamãe se jogar nos braços de meu pai, como se estivesse esmurrando-o. Ele, por sua vez, segurou firmemente os braços dela, afastou-a como se fosse empurrá-la, mas abraçou-a e os seus lábios se encontraram selvagemente. Vi que estavam se beijando. Fui dominado por um sentimento que até hoje não sei definir qual. Aquela foi a primeira vez que vi meus pais se beijando.
Quando retornaram, ele anunciou todo alegre:
- Filho, vamos voltar pra casa!
A partir de então, meu pai começou a chegar em casa as seis da tarde. Passou a jantar conosco. Mamãe o tratava como se nada de errado tivesse acontecido.
Mas afinal, aconteceu algo errado?
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Nunca pensei que aquela descoberta fosse mexer com a minha vida. Daí pra frente, muita coisa mudou.
DIÁRIO DE UM PERALTA – 9ª parte
- A SURPRESA
Todo ano o meu bairro fazia festa junina e mamãe é quem costurava as roupas das pessoas que dançavam a quadrilha.
Numa segunda-feira fomos à cidade comprar tecidos. Na esquina de casa, pegamos uma charrete que fazia o transporte para o centro. Era umas quatro horas da tarde. Rodamos por algumas ruas. De repente vi o meu pai no portão de uma casa com uma mulher morena. Gritei por ele e pedi o cocheiro para parar. Ele se virou. O cocheiro não parou. Continuei gritando, pendurado, acenando. Mamãe também gritou, mas foi com o cocheiro para andar mais rápido.
- Eia! Rápido! Preciso comprar tecido antes que escureça!
Em seguida, virou-se pra mim dizendo que aquele não era meu pai e sim uma outra pessoa. Teimei.
- Era ele sim!
Mamãe me ameaçou:
- Se você disser a alguém que viu seu pai naquela casa, te dou uma surra.
E finalizou com um monte de palavras em alemão, que eu não entendia. Apenas sabia, pela expressão do seu rosto, que não era nada bom. Em casa, aquelas palavras seguiam-se puxões de orelha.
O charreteiro interrompeu-a:
- Frau* Lídia, vamos ter que dar voltas. A ventania derrubou uma arvore na rua. Tá vendo ali adiante?
Percebi que ao invés de olhar para onde o homem indicava, ela disfarçadamente olhou para a casa onde meu pai conversava com a mulher.
Agora ele passava pelo portão da casa.
* Senhora
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