Quando ouvi o barulho lá fora, o alarme, entrei em pânico. Vi claramente a defunta entrando na nossa casa.

 

DIÁRIO DE UM PERALTA – 18ª parte
- ANGELINA /  OS GANSOS

Antes eu disse que mamãe adorava os gansos. Pois é! Foram um presente da madrinha dela. Ganhou dois filhotinhos e hoje tínhamos um bando.
No dia que Angelina, a moça-velha, aquela costureira da “casa da varandinha com gerânios”, bebeu veneno, eles me deram um susto danado. Eu estava debaixo da mesa ouvindo a conversa de mamãe e meu pai sobre o assunto, quando eles começaram a gritaria, anunciando a chegada de alguém. Subi um pouco a toalha da mesa que me encobria e vi alguém entrando. Uma saia preta quase arrastando no chão, pisando de mansinho, passos lentos, avançando na direção da varanda. Era Angelina, a defunta, deslizando pra dentro da sala. Gritei apavorado, ao mesmo tempo em que me levantei pra correr. A minha cabeça bateu no fundo da mesa e consegui virar tudo de pernas pro ar. Todo mundo foi pego de surpresa. Corri pelo corredor, para o quintal. Mamãe foi mais rápida e me alcançou. Meu pai, sem dizer palavra, olhava eu ser trazido de volta pela orelha. E aquela saia preta quase arrastando no chão, que alarmou os gansos, era a minha avó paterna. Eu havia corrido porque sabia que levaria uma surra. Minha avó recriminou:
- Lídia, esse menino não tem jeito! O que ele estava fazendo debaixo da mesa?

 

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A bem da verdade, o nosso ego tem uma maneira meio estranha de se satisfazer. Era esse o caso de Maria Margarida, acho eu.


DIÁRIO DE UM PERALTA – 17ª parte
BRINCADEIRA CRUEL?
Acho que tem gente entediada com a minha história. Para finalizar, só queria falar de uma pessoa do meu passado que eu considerava pitoresca: Maria Margarida. Ela era o que a molecada considerava “uma doida”, o nosso brinquedinho. Nós nos divertíamos demais com a figura dela. Com certeza, a coitada sofreu nas nossas garras. Também, ela provocava... Bem, deixe-me contar um pouquinho sobre ela: saía de casa sempre no mesmo horário, de cabeça baixa, andando igual a uma gansa. Ao cruzar a praça, olhava discretamente para as nossas casas para certificar-se de que estava sendo vista. Descia a rua e desaparecia no beco escuro. Saíamos correndo, escondido dos pais. E cada um ia avisando o outro. Ao chegarmos no beco, ela já estava nos esperando. Era a maior farra. O melhor da festa ia começar. Então gritávamos em coro:
- Maria Margari dá dá dá! Margari dá dá! Margari dá dá!
Depois dos nossos gritos, acontecia o previsto. Ela enlouquecia. Corria desajeitada - um animal tentando capturar a presa - pegava o que visse pela frente e jogava em nós: pedras, pedaços de pau, tijolo, tudo. A gente delirava, correndo e gritando. Ela atrás. Era cada um por si. Cada qual pro seu lado. Ela ficava atarantada, querendo pegar qualquer um de nós. Quando se cansava de correr, sentava no meio-fio chorando, gritando palavrões horrorosos, esmurrando as próprias pernas e sapateando, enquanto ríamos até cansar.

Nunca imaginei que algum dia iria considerar essa brincadeira até cruel! Pois é! Mas ela gostava, gente! Ela mesma até disse naquele dia, após levarmos uma surra e decidir não mais mexer com ela:
- Uai, ocês num vai mexê cum eu hoje não?
Isto depois de ver que a gente estava sentados nos bancos da praça bem sossegados, vendo ela passar pra lá e pra cá à espera de que a gente mexesse com ela... Ninguém tinha coragem. Todo mundo com medo de outra surra.
Hoje penso que apesar de tudo, ela gostava de ser atazanada. Era a sua forma de ser notada... A verdade é que nos divertimos muito com Maria Margarida. Pena que morreu.

 

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Nunca imaginei que o amor por uma mulher pudesse ser tão... tão... nem tenho palavras para expressar o meu pensamento!


DIÁRIO DE UM PERALTA – 16ª parte
THRESSE – a minha paixão.
Na Colônia Germânica, conheci Thresse, uma alemãzinha da família Kleiner, por quem me apaixonei. Eu tinha quase dezesseis anos, estava voltando do Internato e ainda não namorava. Na verdade agora eu só queria bagunçar, recuperar o tempo perdido. No mais, era muito tímido com as meninas. Thresse mexeu com o meu coração, mas o meu primo Chute, sempre entrão, chegou na frente. Enquanto eu pensava no que iria dizer a ela, os dois já estavam namorando. Descobri tarde demais. Quando via os dois juntos, achava-o um traidor, mas disfarçava o meu ódio. Afinal, éramos parentes e fomos criados juntos. Não dizia nada, mas o ódio foi crescendo e um dia quando ele contou que ia ficar noivo, decidi matá-lo. Alimentei a idéia por muito tempo. E levei a coisa tão a sério que construí uma armadilha, aquela de pegar capivara, usando uma velha espingarda e linha de pescar amarada ao gatilho. Deixei a armadilha pronta no mato e fui à casa do meu primo convidá-lo pra caçar.
Preparei tudo de modo que Chute embaraçaria na linha e o tiro iria atingi-lo em cheio. Meu primo tinha um cão que nunca largava-o, chamado Fiel. Saímos. Fiel sempre alegre, pulando, farejando, viu um coelho e correu para pegar o bicho. Embaraçou na linha. Ouviu-se um tiro. O animal tombou. Corremos.
Quando vi o pobre animal ali morto, ensangüentado, eu também fui atingido. Atingido pela minha consciência. Por pouco teria matado o meu primo, o meu amigo de infância. Tudo por causa de uma mulher, por uma paixão, por ciúmes, inveja, sei lá! Virei as costas e fechei os olhos para não ver o desespero de Chute diante do seu animal morto.
Na verdade, ali, de costas e de olhos fechados, eu orava agradecendo a Deus por ter sido o animal. Se alguma coisa tivesse acontecido a Chute, acho que me mataria também. Naquele momento decidi contar toda a verdade. Mal acabou de ouvir, Chute partiu pra cima de mim. Travamos uma luta corporal, na qual tentei me safar sem machucá-lo, mas o meu primo estava mesmo a fim de acabar comigo. Tentando me livrar dele, dei-lhe um empurrão. Ele caiu de penas pra cima e sai correndo, quando sua voz cheia de ódio gritou.
- Parado, seu canalha!
Virei-me. Chute me apontava a velha espingarda.
- Agora sou eu que vou matá-lo, desgraçado!
Fechei os olhos e berrei.
- Atire, Chute! Vamos acabar logo com isso!
Não sei quanto tempo se passou até o momento em que ouvi um tiro. Surpreso, abri os olhos e vi que Chute mirava pra cima.
- Devia ter atirado em você, seu canalha! Não tive coragem. Some da minha frente, Beto! Não quero te ver nunca mais!
- Chute, me perdoe...
- Se você tivesse dito que estava apaixonado por Thresse, eu teria desistido de namorar com ela.
Aquelas palavras doeram muito. Tentei argumentar.
- Chute, não tive coragem...
Cheio de ódio, ele me encarou, agora encostando a espingarda no meu peito.
- Some da minha frente, Beto! Nunca mais quero te ver! Some antes que eu mude de idéia e aperte o gatilho!
Dei-lhe as costas e sai andando lentamente. Ele gritou outra vez.
- Corre, seu desgraçado!
Corri pelo mato, cambaleando, envergonhado. Queria estar bem longe dali. A vergonha e o remorso tornavam pesadas as minhas pernas.
Depois disso, Chute nunca mais foi a nossa fazenda. Nunca mais o vi. Acho que pus fim a nossa amizade no momento em que cogitei matá-lo.
Resumindo:
Nem eu nem Chute se casou com Thresse. Ela fugiu com o leiteiro, um rapaz moreno de cabelos crespos, que toda manhã ia numa caminhonete apanhar o leite pra vender na cooperativa.

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