O TERREIRO DA BAIANA

Ele estava passando por toda sorte de problemas. Casamento desfeito, briga na justiça pela guarda dos filhos, dívidas, etc etc. O amigo, tentando ser solidário, resolveu dar uma força. Comprou um jornal com intenção de consultar uma financeira para conseguir um empréstimo pro outro, mas acabou esbarrando no seguinte anúncio:

VOVÓ MILAGRES DA BAHIA

Cartas, Búzios, Tarô. Trabalho garantido. Solução dos seus problemas. Experiência de 30 anos de terreiro...”

Após ler todo o anúncio, o amigo, empolgado, correu para o celular.

- Cara, encontrei a solução para os seus problemas!

E leu o anúncio para o colega, completando em seguida:

- Vou te levar nessa Mãe de Santo hoje mesmo!

Como já estava descrente de tudo, ele nem se empolgou.

- Vou nada! Não acredito nisso! E tem mais: essa mulher não resolve nem os problemas dela!

- Como sabe, se nem a conhece!

- Pense bem! 30 anos de terreiro! Nessa altura do campeonato, ela já não teria que ter mudado de vida?

- Como assim?

- Em 30 anos, ela ainda está no terreiro... não teria que já estar numa cobertura triplex ou num condomínio de luxo?

 

DOLOROSO SILÊNCIO

Ela teve que passar em meio à multidão de cabeça erguida, para não demonstrar o que se passava no seu íntimo. Sentiu olhares curiosos cravados em si, balbucios, cochichos, murmúrios. Mesmo assim avançava pelos corredores aparentando uma tranqüilidade que só Deus lhe deu forças para adquirir.

Ao chegar ao final de um corredor, onde apenas uma fresta de luz iluminava o pequeno espaço entre as paredes, virou-se e empurrou uma porta à esquerda. Entrou. E mais uma vez sentiu olhares curiosos analisando-a.

Tranquilamente, postou-se diante de todos. Corpo ereto, queixo erguido. Procurou as palavras adequadas que pudessem sair de sua boca sem que causasse mais choque, sem que provocassem mais tumulto além do que a situação já havia provocado dois dias atrás. Nada encontrou!

Na realidade, seus olhos não enxergavam ninguém. Fixavam-se num vazio tal qual o seu coração se encontrava, mas o som de uma voz que tentou se erguer num canto da sala, fê-la voltar imediatamente à realidade. Sem hesitar, ela a interrompeu:

- Nada aconteceu... quer dizer, tudo acontece na vida da gente. Se estou aqui hoje, é por que não tive coragem de ficar em casa. Meu marido morreu... ele quis assim, mas a vida continua. Vamos tocar o barco. Abram os seus livros na página...

Só Deus sabe o quanto foi difícil dizer aquilo para os seus alunos. Falar assim para pessoas que queriam somente lhe dirigir palavras de consolo pela perda.

Quando ela percebeu que todos os olhares, obedientes, se desviaram para procurar a página indicada, sentiu a solidariedade invadir toda a sala. Seus alunos tornaram-se cúmplices daquele silêncio de dor.

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