DOIS VULTOS NA JANELA
Eu sabia que estava em casa porque via a luz acesa. Estava apaixonado por ela. E não via a hora de ela chegar da escola para sentir a sua presença ali, pertinho, mesmo sem saber de mim.
Mas os dias se passaram e vi que tudo estava às escuras. Parecia que a casa fora abandonada. Fiquei intrigado. Perguntei aos vizinhos e me disseram que à noite, lá pelas onze, ela sempre chegava sozinha. Até aqui, nenhuma novidade.
Então, intrigado, passei a observar melhor, o que nunca deveria ter feito. Numa clara noite de lua, vi o vulto de duas pessoas se beijando, se comprimindo contra a vidraça da janela, o que pôs fim às minhas esperanças.
Fiquei louco de ciúmes. Um turbilhão de pensamentos invadiu a minha mente. Instintivamente peguei uma pedra e atirei nas vidraças. O barulho de cacos de vidros sendo estraçalhados perturbou o silêncio da noite, ao mesmo tempo em que as luzes da casa se acendiam.
ESCRAVO SEM CARRO
- Mana, o teu tanque tá cheio?
- Tá. Acabei de vir do posto de gasolina.
- Me empresta o carro essa semana. Tem umas gurias de Floripa aí na cidade... queria dar uns rolés... tu sabe, né? Só pra chegar junto.
- Tô sabendo... Empresto sim!
- Sabia que podia contigo! Te adoro!
- Empresto, mas tu tem que me levar de manhã para o serviço e buscar na hora do almoço. Depois tornar levar. Quando eu voltar para o segundo expediente, tua sobrinha vai junto com a gente. Na volta, tu a deixa na escola. Às seis horas, tu me pega no escritório e vamos buscar Ana Paula na creche. Sete horas, leva o teu cunhado para a faculdade...
- Chega!
- Que foi?
- Pode deixar. Não quero mais. Um dia tu ainda vai precisar de mim!
- Bah! Eu faço tudo isso todo dia...
- Deixa quieto! Não quero mais não. Isso já abusar é da minha boa vontade.
- Boa vontade?
- Só porque queria conhecer as gurias, tu quer se aproveitar de mim?
- Mas é a minha rotina. Uso o carro pra isso. Se deixar contigo, como...
- Ingrata! É a primeira vez que te peço o carro e me vem com essa... Pega logo o chicote! Pega, vamos!!! Pra escravo, só falta me amarrar no tronco e dar chicotadas. Fui!!!
OBJETOS ESTRANHOS
Dois amigos catavam vidros reclicáveis para vender. Certo dia, um deles encontrou um vidrinho engraçado, diferente, bojudo, cheio de pequenos objetos esbranquiçados. Parecida um vidro de perfume. Diferente mesmo. O outro também se interessou pelo vidrinho e o pediu para si.
Muitos anos depois, agora já sozinho porque o amigo desaparecera sem mais nem menos - sem dar explicações - ele resolveu catar papéis também. A comercialização de vidros já não dava para cobrir o orçamento. Eram necessárias outras alternativas.
Bem, nesse dia, quando ele ergueu um monte de jornais cuidadosamente amarrados (as pessoas tinham o cuidado de deixar os jornais empilhados para facilitar o trabalho dos catadores) viu a foto de um homem elegante e bem vestido, exibindo um sorriso amável, de dentes brancos e impecáveis, com o queixo apoiado na mão, onde exibia um anel de muitos quilates. Abaixo da foto, seguia a manchete:
“Empresário de jóias em tour pela Europa com a família... “
Ele não continuou a leitura porque a lembrança do colega pedindo o vidrinho bojudo se infiltrou em sua mente. E parou mesmo para refletir que o agora “empresário de jóias” era aquele seu amigo até o momento em que se interessou por um vidrinho bojudo, cheio de pequenos objetos esbranquiçados...
COMPRIMIDO E BOTÃO
Os anos passam. A idade avança. Um quarto mal iluminado. Óculos de leitura perdidos em algum lugar. Um botão branco na mão, para pregar na camisa do neto. Seis horas da tarde. Hora de tomar o comprimido contra hipertensão. Comprimido e botão sobre um criado. Ela sentada na beirada da cama.
Muito tempo depois, gargalhadas da velhinha vindas do quarto. Naquela casa, o bom humor impera. A família corre para ver o que há de engraçado.
- Cadê o botão pra pregar na camisa do Marquinhos que eu coloquei aqui no criado? Cadê meus óculos?
Todos saem à procura do botão. O comprimido é encontrado.
- Vovó, a senhora tomou o botão no lugar do comprimido!?
A confirmação do fato exibida na palma da mão de um dos netos.
Mais risos. Entre gargalhadas, outra voz grita da sala.
- Vovó, encontrei seus óculos!
CENAS DE UM CASAMENTO
Eu era muito namorador. Acho que foi por essa razão que ela não acreditava que estivesse apaixonado. Assim, levei bastante tempo para conquistá-la. Quando consegui, tive que provar diversas vezes a minha fidelidade, provar que amava-a, que ela era a mulher da minha vida. As outras já não tinham mais lugar no meu coração. Imaginem o trabalhão que isso me deu...
Noivamos durante dois anos. Fizemos planos. (Aí ela já confiava em mim). Ela fez o enxoval, fez compras dos utensílios para a casa. Eu fiz cálculos. Juntamos os salários e fizemos o financiamento do imóvel. No final das contas, estávamos fazendo coisas como se já fôssemos um casal.
No dia do casamento, o dia marcado à consolidação de tudo isso, vacilei, questionei se era mesmo aquilo que eu queria. Minha cabeça fervilhava. Pensava o tempo todo nela me esperando no altar. Quase que automaticamente, me vesti e me dirigi para a igreja. Antes, parei o carro num estacionamento e entrei um bar. Ocupei uma mesa num canto, na penumbra, atrás de um monte de caixas de cerveja. Eu não tinha pregado os olhos na noite anterior, pensando o quanto hoje seria o grande dia.
O garçom me trouxe água mineral. Bebi demoradamente. Fiquei longo tempo pensativo, refletindo. Por fim, com os olhos cansados, debrucei sobre o braço direito. Já era tarde, pois o casamento fora marcado para as nove horas da noite. O escuro do ambiente e o silencio do bar, quase vazio, me proporcionaram um relaxamento como se eu estivesse flutuando.
Peguei no sono. Acordei algumas horas depois, sem saber onde estava. Em seguida, reconheci o bar, mergulhado no escuro. Procurei me adaptar à escuridão e vi que realmente estava sozinho ali. Olhei o relógio e percebi que havia se passado mais de três horas desde que cheguei naquele lugar. E agora? E o meu casamento?
Sobre as emoções que me invadiram nos momentos seguintes, nada sei explicar. Só sei que de repente senti um alívio tão grande, uma sensação de liberdade tão grande, que senti vontade de voar, como um pássaro. E o meu casamento? A noiva no altar me esperando? O que as pessoas estavam falando, pensando? E ela?
Sai tateando do bar, procurando a saída. A porta estava mesmo trancada. Teria que passar a noite ali dentro de qualquer maneira. Amanhã daria uma explicação, pensei. Depois dessa decisão, inexplicavelmente, uma sensação de liberdade me invadiu. Desejei que aquela porta nunca mais fosse aberta.
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