CONFISSÕES DE UM PILANTRA

Nos últimos dois anos, passei me escondendo, fugindo até da própria sombra, me hospedando em hotéis baratos, saindo na calada da noite para não pagar diárias, recitando poesias em praças públicas, disfarçado de mendigo intelectual. Noutras cidades, tocando músicas em violões ao por do sol, para alegrar um pouco as pessoas que saiam apressada do trabalho, as quais, indiferentes, jogavam uma moeda numa latinha que eu mantinha no chão, o que era suficiente para eu fazer um pequeno lanche.

 

Antes de estar nessa situação, eu levava uma vida normal com meus pais, mas impensadamente, acabei me envolvendo numa série de pequenos crimes que no somatório, fizeram com que a minha dívida para com a justiça só pudesse ser paga ao longo de muitas décadas.

 

Quando não pude mais evitar que o acerto de contas dos crimes que vinha cometendo, quando acordei, a justiça já havia acordado bem mais cedo. Suas garras já estavam de olhos arregalados há muito tempo e me alcançaram mais cedo do que eu desejava. Fui preso, julgado e condenado.

 

Na cadeia, quando me vi livre das algemas e sendo empurrado violentamente para dentro de uma minúscula cela abarrotada de homens, percebi que o meu destino estava impiedosamente selado ali naquele lugar. Me senti separado do mundo, de tudo. Sozinho e abandonado. A constatação fez com que lágrimas jorrassem pela minha face, sem me importar com a chacota dos outros presos que me olhavam como se eu fosse a última maravilha do mundo.

 

Me senti separado de mim, do meu querer, do meu viver, da minha liberdade de correr cidades mesmo fugindo, dos meus sonhos, da vontade de estar em diversos lugares, de fazer coisas, de amar. Separado de outros lugares que cogitei visitar, conhecer, mas que acabei não indo além dos sites da internet em Lanhouse e cartões postais que eu passava horas e horas olhando nas bancas de revistas. Separado do meu violão, das músicas apaixonadas que eu tocava para alegrar os corações e matar a minha fome. Separo das mulheres que amei e que me amaram, quando eu representava aquilo que alimentava as suas fantasias. Separado da minha essência vital. Separado da minha própria voz quando era camelô e gritava nas calçadas das grandes cidades:

- CDs, 3 por R$ 5,00. Meia soquete: R$ 2,00 o par. Chega aí, freguesa, alface fresquinha! Vem... vem comprar!

 

Agora eu estava ali, trancado, com a cabeça fervilhando. Sabia que, para os próximos 25 anos, os meus planos estariam confinados comigo naquela minúscula cela. Instantaneamente, como um radio, uma força misteriosa se apoderou do meu coração. E essa força fez com eu estancasse as lágrimas que rolavam pela minha face.  

Naquele momento me dei conta de que me tiraram a liberdade, mas a verdadeira liberdade - a de pensamento - essa não há justiça, nem condenação, nada, nada que a possa tirar de alguém.

 

Inspirado nos seguintes trabalhos de minha autoria.

- Poetrix: FINALMENTE LIVRE

- Conto Minimalista: COMEMORAÇÃO DE RICO

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