A MULHER IDEAL?

Aposentou-se. Estava meio desnorteado. Não sabia administrar o tempo livre nem o falatório da esposa no seu ouvido. (A mulher falava 24h por dia). Para se livrar do incômodo, começou a cuidar do jardim, passar ali quase o dia inteiro mexendo com as plantas, irrigando, inventando coisas.

Foi assim que conheceu a vizinha que recém mudou para uma casa do outro lado da rua.  

 

Todo dia ele a via saindo para as compras e a sua presença lhe dava prazer. Tinha vontade oferecer a ela uma flor, dar um bom dia, mas temia que fosse casada, ser mal interpretado e acabar estragando tudo.  Então, ficou esperando uma oportunidade de lhe falar. O aposentado sentia que estava nascendo dentro de si algo novo, um sentimento que nem ousava chamar de paixão.

 

 

Era uma cinquentona alta e morena. Trajava saia abaixo do joelho, cabelos presos num coque e de aparência muito discreta. Andava num ritmo cadenciado, sempre olhando para o chão. Dava a impressão de ser muito tímida e calada.

 

Certo dia, quando ele podava uma roseira, viu-a subindo a rua, carregando pesadas sacolas. Era uma oportunidade de oferecer ajuda, mas pensando bem, oferecer pra carregar sacolas pra alguém? É comum, “normal”? Melhor continuar o seu trabalho. A presença dela já era o suficiente para lhe dar felicidade.

 

Voltou à sua tarefa no jardim. Enquanto abaixava para apanhar os galhos da planta espalhados no gramado, ouviu o barulho de latas caindo. Uma sacola arrebentou e as compras da vizinha se espalharam pela rua. Ele correu para ajudar. Saiu catando latas e outros objetos espalhados no asfalto, pensando: “Deus é muito bom, deu-me a oportunidade... “

Ela permaneceu parada, observando-o. Tinha um sorriso simpático no rosto e as mãos permaneciam firmes, segurando as outras sacolas.

 

Após recolher tudo, ele se aproximou e entregou-lhe as compras. A vizinha sorriu, demonstrando agradecimento. Ele disse qualquer coisa que veio à mente; era a oportunidade de falar com a sua paixão. Com dificuldade para erguer a mão, a mulher fez um gesto no qual esclarecia: sou surda-muda.

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