MELHOR ASSIM
Ela tirou uma folga do trabalho para arrumar a papelada para a aposentadoria. Não iria se aposentar por tempo de serviço. Começou a trabalhar muito tarde porque teve que ajudar a cunhada, que trabalhava fora, a cuidar das crianças.
Vendo-a em casa, a criança aproveitou para pedir ajuda numa tarefa escolar.
- Tia, a professora pediu pra gente fazer um álbum de família. A sra me ajuda?
- Se eu souber...
- A senhora tem foto?
- Claro, menina!
- É o seguinte: a gente vai colando as fotos da família e escrevendo o que a gente lembrar da pessoa. A sra me dá uma foto?
- Claro!
- Então pega a foto, tia!
Ela foi buscar. Voltou. A menina colou-a numa folha de caderno, onde já estavam a dos pais e dos irmãos e escreveu alguma coisa. A tia quis ler, ela pediu
- Peraí, tia! Depois eu leio pra senhora!
Demorou uns 10min e em seguida leu como qualquer criança de sete anos leria.
- Minha tia é boa, cheirosa, bonita, rica...
- Que rica, menina? Tá querendo que alguém venha aqui me assaltar?
- Tá bom! Vou tirar rica então...
Apagou a palavra. A tia observava-a. A menina ficou pensativa e depois perguntou.
- Tia, quantos anos a senhora tem?
Ela respondeu brincando:
- 36!
A menina retrucou:
- Pode parar, tia! Não vale mentir! A senhora já pôs até botox! Eu sei que já tem 42 anos!
- Menina esperta! É isso mesmo! Coloca aí no seu álbum 42 anos pra sua tia querida!
A MULHER IDEAL?
Aposentou-se. Estava meio desnorteado. Não sabia administrar o tempo livre nem o falatório da esposa no seu ouvido. (A mulher falava 24h por dia). Para se livrar do incômodo, começou a cuidar do jardim, passar ali quase o dia inteiro mexendo com as plantas, irrigando, inventando coisas.
Foi assim que conheceu a vizinha que recém mudou para uma casa do outro lado da rua.
Todo dia ele a via saindo para as compras e a sua presença lhe dava prazer. Tinha vontade oferecer a ela uma flor, dar um bom dia, mas temia que fosse casada, ser mal interpretado e acabar estragando tudo. Então, ficou esperando uma oportunidade de lhe falar. O aposentado sentia que estava nascendo dentro de si algo novo, um sentimento que nem ousava chamar de paixão.
Era uma cinquentona alta e morena. Trajava saia abaixo do joelho, cabelos presos num coque e de aparência muito discreta. Andava num ritmo cadenciado, sempre olhando para o chão. Dava a impressão de ser muito tímida e calada.
Certo dia, quando ele podava uma roseira, viu-a subindo a rua, carregando pesadas sacolas. Era uma oportunidade de oferecer ajuda, mas pensando bem, oferecer pra carregar sacolas pra alguém? É comum, “normal”? Melhor continuar o seu trabalho. A presença dela já era o suficiente para lhe dar felicidade.
Voltou à sua tarefa no jardim. Enquanto abaixava para apanhar os galhos da planta espalhados no gramado, ouviu o barulho de latas caindo. Uma sacola arrebentou e as compras da vizinha se espalharam pela rua. Ele correu para ajudar. Saiu catando latas e outros objetos espalhados no asfalto, pensando: “Deus é muito bom, deu-me a oportunidade... “
Ela permaneceu parada, observando-o. Tinha um sorriso simpático no rosto e as mãos permaneciam firmes, segurando as outras sacolas.
Após recolher tudo, ele se aproximou e entregou-lhe as compras. A vizinha sorriu, demonstrando agradecimento. Ele disse qualquer coisa que veio à mente; era a oportunidade de falar com a sua paixão. Com dificuldade para erguer a mão, a mulher fez um gesto no qual esclarecia: sou surda-muda.
MICROCONTOS N. 06
01 - SÓ DE CUECA...
TrêBado, perdeu o caminho de casa. Acabou dormindo no ponto de ônibus. De manhã, clarão ofuscando os olhos. Ouviu risos. Ele só de cueca...
02 - BEM FEITO
Fugindo do ex-namorado que descia a rua, entrou num portão que viu aberto... Foi o ex que a salvou do vira-latas que não largava a sua saia.
03 - GRÁVIDA TEM CADA UMA
Pediu caranguejo. Marido trouxe. Ao abriu a embalagem, ela berrou: "É siri! Não quero". Marido: "Amor, siri é caranguejo melhorado, coma!"
04 - FOI GOLPE
Contratada pra resolver situação de filha fora do casamento de doente terminal, analisando o seu IR, Advogada acha lucrativo casar com ele.
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MICROCONTOS N.05
01 - MÃE NO CATIVEIRO
Direto na janela pescando vida alheia. O filho, revoltado, parafusou a janela. Ela ficou presa em casa. Ele, na cadeia. Crime: cativeiro.
02 - POR ESSA ELA NÃO ESPERAVA
Namorava os dois sem que cada um soubesse... se apaixonou e decidiu abrir o jogo. Ouviu dele: “Nós sabia! Nós sortiava qual ia sair cocê”.
03 - CHICOTE DO CORPO
Falava da vizinha, gratuitamente. Quando teve um ataque do coração, a vizinha foi a primeira a socorrê-la. Nem teve tempo de agradecer...
04 - LEVOU O CANO
Inseminador. Um ano empregado. Quando teve que voltar pra casa, pediu grana emprestada... O fazendeiro contava os bezerros. Não gastou...
05 - GRÁVIDA TEM CADA UMA
Grávida queria caranguejo. Ele comprou. Ao abriu a embalagem, ela berrou: "É siri! Não quero". Marido: "Amor, siri é caranguejo melhorado!"
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MATO OU MOTEL
Henrique fez um churrasco no sítio e pediu à esposa para dar carona ao Marcos, um colega de trabalho. Queria estreitar os laços de amizade com quem trabalhava. A esposa se mostrou pronta para atender o seu pedido e apanhou o rapaz no estacionamento do prédio de escritórios, o qual localizava-se num bairro movimentado da cidade.
O sítio ficava a 60 km. Era necessário trafegar por um pequeno trecho de estrada asfaltada, depois a maior parte do percurso, por uma estrada de chão.
Ainda na estrada asfaltada, já bem entrosados os dois, batendo papo e dando boas risadas, o colega do marido avistou a placa luminosa de um motel na beira da rodovia. Logo se animou, pois conversa vai, conversa vem, ele não desgrudava os olhos dos atributos de Marcela, a esposa do amigo. Bem, vendo a placa luminosa do motel, o rapaz, fingindo admiração, disse:
- Ué... motel por aqui?
- Tem muitos!
Ele se calou por alguns instantes, depois soltou essa:
- Legal! Sabe o que me passou uma idéia pela cabeça? – disse ele, olhando-a mais demoradamente, sem deixar escapar parte alguma do corpo da mulher.
Ela percebeu a insinuação na voz, bem como os olhares, mas disfarçava. Marcela era uma morena bronzeada de praia, bastante inteligente. E nesse dia, trajava um vestido de alcinhas florido, abaixo do joelho, mas que de maneira generosa, mostrava os contornos das coxas. Os cabelos negros, jogados nos ombros, quase escondiam os brincos de argolas. E um batom vermelho delineava os lábios sedutores daquele rosto tenro e juvenil.
- Qual idéia? - perguntou, sorrindo, sem demonstrar muito interesse.
- Que horas começa o churrasco?
- A hora que a gente chegar. Meu marido não convidou muitas pessoas. Acho que só você e mais um casal com a filha.
- Hum... Dá tempo... quer mesmo saber o que pensei? – falou, olhando as pernas dela, ao mesmo tempo em que via o motel cada vez mais perto.
- Diga!
- A gente poderia ir descansar um pouquinho ali. – apontou - Sabe, trabalhei muito hoje. Serviço estressante que o seu marido me dá pra fazer. E você também deve estar cansada. Professora... deve enfrentar uma barra!
- É verdade. Alunos não são fáceis.
- Que acha da idéia?
Marcela não respondeu. Sorriu ligeiramente mais uma vez e continuou dirigindo, calada, sem demonstrar nenhuma reação, mas uns 5 minutos depois, fez um retorno e pegou uma estradinha de chão. Marcos já estava impaciente com aquele silêncio e também com a falta de anúncios de motéis. Agora só se via mato adornando a estrada. E poeira!
- Que lugar esquisito! Estradinha estreita essa!
- É...
- Por que entrou aqui? Você ficou calada desde que sugeri que fôssemos descansar um pouquinho no motel.
A interrogação não serviu para quebrar o silêncio. Ela apenas olhou-o rapidamente e entrou numa outra estrada de terra, mais estreita ainda. Em seguida, parou o carro. E bastante autoritária, gritou:
- Desce!
- O que? Pra que?
- Aqui termina a sua viagem!
- O quê? Você não vai me deixar nesse escuro!
- Pode apostar que sim! E a temperatura aqui, na madrugada, cai drasticamente!
Nesse momento o celular de Marcela tocou. Era o marido. Ela conversou naturalmente, sem tirar os olhos do rapaz.
- Não, Henrique, o Marcos não veio. Passei lá, ele disse que tinha um compromisso, que não podia vir... Ok, amor, tô na estrada, não posso falar muito. Daqui a pouco chego. Beijos!
- Como você é mentirosa! Não sabia que Henrique era casado com uma mentirosa.
- E você fica aí, calado, enquanto entro no carro. Mas fique descansado. Não vou contar nada pro meu marido.
- Se quiser contar, conta... Mas eu ficar aqui, nesse escuro? Tá doida?
- Se tiver algum motel por perto, você pode alugar uma suíte “pra descansar.”
- Era só o que me faltava. Encontrar logo numa sexta-feira uma maluca pra estragar o meu fim de semana!
- Acho melhor você ficar quietinho aqui. Não fique andando escuro. Ouvi dizer que aqui tem onças!
Foi dizendo isso e entrando no carro. Fechou bruscamente a porta e arrancou cantando pneus. A poeira encobriu tudo. O rapaz ficou lá, no breu, desesperado, olhando pra todo lado. Estava apavorado mesmo.
Marcela dirigiu por alguns minutos sozinha, satisfeita por ter se livrado do importuno, mas depois pensou bem e resolveu voltar. Assim o fez. Parou quase junto do rapaz.
- Ainda bem que você voltou... – gritou ele alegremente, correndo na direção do carro. – Já tô sentindo frio...
- Calma. Só vim dizer pra tomar mais cuidado! Ouvi dizer que aqui tem lobos também. Onças e lobos!
- Deixa eu entrar nesse carro, Marcela, por favor!
Ele recebeu como resposta um olhar fulminante e o barulho da chave na ignição, ligando o carro, mas dessa vez pôde ouvir gargalhadas também, porque Marcela saiu lentamente, rindo e abrindo a escuridão da estrada com os faróis altos.
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UM LADRÃO DE SENTIMENTOS
Ele sempre passava lá em casa para pedir resto de comida, dinheiro ou alguma roupa velha que a gente não usasse mais. Mal balbuciava as palavras, mas pelos gestos, a gente sabia o que queria. Apesar de não temê-lo, mantinha distância, sempre na expectativa de que algo inesperado acontecesse, coisa que agora, 75 anos depois, vejo que nunca aconteceu.
A roupa suja e o cabelo branco e desgrenhado, compunham a sua figura. Além disso, ele exalavam um mal cheiro insuportável e tinha um aspecto assustador, razão também de eu não me aproximar. Mas, apesar disso, era um homem de bom coração. Muito dócil, em contraste com a sua aparência temerosa e repelente
Ninguém sabia de onde viera. Sabíamos que morava embaixo de uma gameleira, num cômodo construído com restos de tábuas e coberto de cacos de telhas e lonas.
Convivi com ele a minha infância toda; a sua presença na nossa porta de vez em quando. Certo dia, percebemos que fazia um bom tempo que ele não aparecia. De imediato, não demos importância ao fato, embora sentisse que aquela rotina havia, de certa forma, sido quebrada.
Passou-se uma semana. Nada de ele aparecer. Ficamos intrigados. Então minha mãe resolveu ir procurá-lo. Fui com ela. Ao chegar onde ele morava, tivemos uma surpresa. De dentro do casebre exalava um mal cheiro insuportável. Havia moscas e insetos sobrevoando ao redor. Arregalamos os olhos assustados, sem entender o que havia acontecido, mas mamãe, mesmo tapando o nariz, foi até a porta do casebre e puxou a lona para um lado, de maneira que vislumbramos o escuro lá dentro. Foi então que vi mamãe se contorcendo. Um som gutural saiu de sua garganta e seu corpo curvava freneticamente. Corri ao seu encontro gritando, procurando ampará-la, quando vi golfadas de vômitos jorrando de sua boca.
Ouvindo a minha gritaria, uma mulher que ia passando na rua veio correndo ao nosso encontro. Energicamente, segurou mamãe, enquanto a determinação saía quase que automaticamente de sua boca.
- Vamos chamar a polícia!
Quando a viatura do IML chegou com a polícia - homens de branco, com máscaras e lençóis para cobrir o corpo, a notícia já havia se espalhado e as pessoas estavam lá, querendo saber detalhes.
Na seqüência, Peritos entraram e reviraram o casebre, espalhando coisas por toda parte. Pegaram um tapete velho e corroído e jogaram no quintal do casebre. Folhas de papel rabiscadas voavam livres ao vento... uma aliança de ouro rolou pelo chão. Reconheci uma fotografia dele - pelo menos havia certa semelhança na fisionomia - amarelada, quase apagada, acompanhado de uma mulher e duas crianças. Uma fotografia que o remetia a uma juventude perdida há muitos anos.
Como eu era uma criança em idade escolar e curiosa por todo tipo de escrita, saí correndo atrás dos papéis espalhados, lendo alguma coisa aqui e ali, sem entender muito. Eram coisas que falavam de amor, de namorada, de família... versos... livros de autores que eu nem sabia pronunciar o nome. Coisas pessoais que eram arremessadas, assim, sem cerimônia, fora do cômodo.
Na época, não entendi muito bem o ocorrido e nem havia em meu coração de criança sentimentos maduros para isso. Hoje, muitos anos depois, sei que aquele homem era um poeta. Amara, sofrera... Deve ter tido os seus momentos de solidão, de alegria, de felicidade. Como qualquer um de nós. Os rabiscos em sua casa, no chão, sobre o caixote de madeira que servia de criado e espalhados por toda parte... livros, tudo, tudo denunciava que fora uma pessoa que tivera uma boa educação, que lera bons livros.
Naquele instante percebi porque não gostava que a criançada se aproximasse da casa, quando passávamos para ir jogar pelada. Ali ele guardava, como se fosse um tesouro, todo o histórico de sua vida: as alegrias, as tristezas e as fantasias de um coração que sonhava. Guardava todos os sentimentos que habitam um coração e talvez tivesse medo de que algum ladrão os pudesse roubar.
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MICROCONTOS N. 04
01 - NADA DE CAMA, POR FAVOR!
Divorciaram. Ele continuou morando com a ex. Ela fazia tudo do mesmo jeito pra ele. E não ia receber pensão se ele morresse. Exigiu salário.
NADA DE CAMA, POR FAVOR – 2. ato
Armação. Morto ainda no caixão. Chega Advogado. Viúva: Esse aí dizia que ia me deixar na mão, que eu não receberia pensão. Cadê os papéis?
02 - TUDO ISSO? NOSSA...
Solteira. Quarentona. Bonita. Sem filhos. Independente. Morando sozinha. Procurando um relacionamento sério. Gostou? Interessou? Pega procê!
03 - PAIXÃO FULMINANTE
Abandonou o caso. Estava se apaixonando pela vítima e tinha medo de perdê-la, o que aconteceu. O matador de aluguel cumpriu a promessa.
04 - UM CORPO QUE CAI
Falava da vizinha, gratuitamente. Quando teve um ataque do coração, a vizinha foi a primeira a socorrê-la. Nem teve tempo de agradecer...
05 - O PASSADO DE PRESENTE
Abriu a porta. Deparou com o passado à sua frente, propondo-lhe futuro. Fechou novamente a porta. Não desejava aquele presente. Não com ela.
06 - TROCA-TROCA
A vida é uma troca. Aos 80 anos, ele deixou de ser um pão-duro, mão-de-vaca. Quer saber como? Vou contar. O casamento com uma menina de 21.
07 - ALIANÇAS
Para ser notada, pegou o cãozinho e entrou na loja porque viu o cara que já tinha ficado com ele. O rapaz escolhia alianças com uma garota.
08 - CADA UM NA SUA
Casaram. Casas separadas. Ela não deu a chave. Abria pra ele a porta. Escondido, ele fez cópia. Quando testou a chave, o casamento acabou.
09 - MAUS TEMPOS!
Faz tempo! Casa vendida, Corretor deposita dinheiro na conta pra acerto depois. Confisco de contas. Corretor morre. Pô, ainda na justiça?
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O PERIGO MORA AO LADO
Se conheceram no baile fanque. O cara lourinho ficou louco com a menina morena de saia preta curtíssima, cheia de correntes, cabelo empastado de gel. Ela deu mole e ele chegou junto. Ficaram! O tempo todo se agarrando, se esfregando. Um vexame, diria quem não gosta de ver aquilo. Se jogaram mesmo! Contudo, para os dois, álcool transbordando pelos poros, estava tudo em cima. Clima a favor. Ambiente escuro, labirintos, música alucinada e outras coisas mais que a sua imaginação possa alcançar. Deitaram e rolaram, como se diz. Aqui você não deve considerar a palavra deitar no sentido etimológico, porque seriam pisoteados pela multidão que se aglomerava, se movimentava e se contorcia no ritmo louco da música.
No final da noite, quer dizer, de manhã, o rapaz propôs deixá-la em casa. Ela aceitou. Contudo, não queria dar o endereço, afinal, se conheceram na balada.
Assim, já chegando ao bairro, a menina encontrou uma solução para despistá-lo.
- Aí brô, pare aqui... valeu! Moro ali! - apontou para uns casarões que se mostravam imponentes, quase uma afronta às humildes casas vizinhas e à favela a algumas ruas adiante.
- Uau, gata! Aqui? “Cê tá com tudo e não tá prosa”. Onde? Diga lá! – o lourinho caiu na gargalhada sem motivo aparente. Exalava puro álcool, mas ela sobreviveu porque o seu conteúdo etílico estava bem superior àquele bafo.
- Lá! – apontou vagamente para uma das casas, tipo condomínio fechado, numa rua sem saída. Depois, explicando melhor:
- De boa! Não é legal meu pai me ver chegar com você. E mamãe é um chute! Sacou, véi?
- Só... gata!
Eram 5 da matina. O rapaz estacionou, concordando.
Os dois ainda deram mais uns amassos. Depois, a garota mordeu o lábio dele e saiu apressada do carro. Como a rua não tinha saída, o rapaz deu ré, subindo no passeio, fez a manobra e desapareceu.
Constatando que agora estava mesmo sozinha, a garota, puxando a minúscula saia pra baixo e tirando as correntes que refletiam intensamente os raios do sol, fez meia volta, entrou num beco e se encaminhou pra casa, que ficava na boca da favela, bem distante dali.
Andou muito. Caminhava com dificuldade porque a sandália arrebentou, mas valeu à pena. O cara não ficou sabendo que ela morava naquele lugar horroroso. Por fim, exausta de tanto andar, chegou na rua onde morava.
Foi então que viu um tumulto. Carros da polícia estacionados e policiais “armados até os dentes”, prontos para entrar em ação. Parecia que o Batalhão havia se mudado para o outro lado da rua. Surpresa, ela reconheceu o rapaz louro, algemado, queixo enfiado no chão, de maneira que não enxergava nem um palmo diante do nariz. Quase desmaiou de susto.
Na sequência, um policial ergueu o cara e encaminhou-o para uma viatura estacionada transversalmente sobre o passeio; outros policiais saíam de dentro da casa carregando caixas de papelão.
Apressadamente, ela abriu o pequeno portão de madeira e entrou. E disfarçadamente, atrás da cortina, passou a observar tudo que ocorria lá fora, não perdendo nenhum detalhe da operação.
A cena que se apresentava aos seus olhos lhe trouxe uma constatação: tão cedo não veria o cara lourinho com o qual botou pra quebrar na balada.
Ei você! Fala aí!!! Tu acha que depois dessa, a guria ainda ia dar mole na balada? Xaqueto!
O SIM MAIS ESPERADO DA MINHA VIDA
Eu sempre me perguntei por que casei com aquela mulher, mas fiz esse questionamento depois de estarmos juntos sob o mesmo teto e descobrir que não tínhamos nada em comum. Coisa um pouco tarde, não é mesmo? A minha vida inteira agüentei o seu mau humor e o não como única resposta para tudo, mesmo para o que viesse a concordar depois. Toda frase sua começava com um não. Se eu dissesse: “Adoro macarrão. Faz uma sopa pra nós? Ela retrucava: Não, vou fazer espaguete; Vamos ao cinema? Não, estou cansada!; Esse vestido ficou muito bonito em você. Não, ele está muito justo...; Vamos ao teatro? Não! Vamos jantar fora? Não! Você quer dinheiro para as compras: Não!” E mais um bilhão de nãos que eu ouvia. Para mim, era o fim! Isso me irritava, mas preferia me calar, como forma de me resguardar de inevitáveis discussões.
Para ser mais exato, ouvi dois sins saindo daqueles lábios que um dia beijei pensando que fossem o meu verdadeiro amor. O primeiro sim foi no dia do nosso casamento, quando o padre fez aquela pergunta de praxe e meus ouvidos receberam aquele sim como a melodia mais linda do mundo.
O segundo sim: depois de 10 longos anos casados, um dia cheguei em casa e encontrei malas na sala. Não estranhei porque de vez em quando ela viajava pra casa de parentes. Isso me alegrava. Era uma maneira de me ver sossegado, de ficar em paz por algum tempo. Quando perguntei a ela pra casa de quem estava indo, respondeu de cara amarrada.
- Estou indo embora definitivamente da sua vida!
Foi um alívio ouvir aquilo. Acreditem! Entretanto, contive a alegria e indiferente, sondei-a:
- Indo embora definitivamente? Como? Acabou o nosso casamento? Está abandonando o nosso lar? – disse eu, feliz da vida, mas não deixei que a ironia me denunciasse.
Ela, friamente, do jeito que sempre foi, respondeu de maneira quase inaudita:
- Sim!
Este foi o segundo sim que ouvi dela. O sim da minha liberdade. O sim que esperei mais de dez anos para me trazer essa felicidade.
MICROCONTOS N. 03
01 - PAIXÃO FULMINANTE
Abandonou o caso. Estava se apaixonando pela vítima e tinha medo de perdê-la, o que aconteceu. O matador de aluguel cumpriu a promessa.
02 - NA PRISÃO
A criança ouviu a mãe ao telefone: “Meu marido tá preso no trânsito”. Depois, ligou para um advogado: “Quanto o Sr. quer pra soltar papai?"
03 - TRANSFORMAÇÃO
Talentoso escritor entrou na onda do Twitter; endeusou a amada a tal ponto... usou palavras tão melosas que o microconto virou poesia.
04 – ESPOSA CHICOTEADA
Gritava com a esposa ao telefone, impaciente, irritado... Na frente dos colegas. Um deles não agüentou mais ouvir: Rapaz, pega um chicote...
05 - MILIONÁRIA OCUPAÇÃO
Na capital ficou rico. A mãe não passava necessidades... só soube da sua real ocupação ao vê-lo no jornal, bonito, sereno, crivado de balas.
06 - NÃO TROQUE O SEU MARIDO
Quis o cãozinho. O marido comprou. Sempre que ele chegava em casa, tudo bagunçado, almoço por fazer... Apareceu a outra; comida na mesa...
07 - O OUTRO MUNDO
Ela descobriu o outro mundo, o virtual. Lá ela era a burguesinha, dona de tudo; tinha mordomia. Morava na Zona Sul. Pseudo- personalidade.
08 - ZONA SUL?
Sem-terras com os dias contados. Vem aí a inovação. Um site onde pode escolher onde morar. Dica: aperte a tecla Zona Sul. Dica de uma amiga.
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CONFISSÕES DE UM PILANTRA
Nos últimos dois anos, passei me escondendo, fugindo até da própria sombra, me hospedando em hotéis baratos, saindo na calada da noite para não pagar diárias, recitando poesias em praças públicas, disfarçado de mendigo intelectual. Noutras cidades, tocando músicas em violões ao por do sol, para alegrar um pouco as pessoas que saiam apressada do trabalho, as quais, indiferentes, jogavam uma moeda numa latinha que eu mantinha no chão, o que era suficiente para eu fazer um pequeno lanche.
Antes de estar nessa situação, eu levava uma vida normal com meus pais, mas impensadamente, acabei me envolvendo numa série de pequenos crimes que no somatório, fizeram com que a minha dívida para com a justiça só pudesse ser paga ao longo de muitas décadas.
Quando não pude mais evitar que o acerto de contas dos crimes que vinha cometendo, quando acordei, a justiça já havia acordado bem mais cedo. Suas garras já estavam de olhos arregalados há muito tempo e me alcançaram mais cedo do que eu desejava. Fui preso, julgado e condenado.
Na cadeia, quando me vi livre das algemas e sendo empurrado violentamente para dentro de uma minúscula cela abarrotada de homens, percebi que o meu destino estava impiedosamente selado ali naquele lugar. Me senti separado do mundo, de tudo. Sozinho e abandonado. A constatação fez com que lágrimas jorrassem pela minha face, sem me importar com a chacota dos outros presos que me olhavam como se eu fosse a última maravilha do mundo.
Me senti separado de mim, do meu querer, do meu viver, da minha liberdade de correr cidades mesmo fugindo, dos meus sonhos, da vontade de estar em diversos lugares, de fazer coisas, de amar. Separado de outros lugares que cogitei visitar, conhecer, mas que acabei não indo além dos sites da internet em Lanhouse e cartões postais que eu passava horas e horas olhando nas bancas de revistas. Separado do meu violão, das músicas apaixonadas que eu tocava para alegrar os corações e matar a minha fome. Separo das mulheres que amei e que me amaram, quando eu representava aquilo que alimentava as suas fantasias. Separado da minha essência vital. Separado da minha própria voz quando era camelô e gritava nas calçadas das grandes cidades:
- CDs, 3 por R$ 5,00. Meia soquete: R$ 2,00 o par. Chega aí, freguesa, alface fresquinha! Vem... vem comprar!
Agora eu estava ali, trancado, com a cabeça fervilhando. Sabia que, para os próximos 25 anos, os meus planos estariam confinados comigo naquela minúscula cela. Instantaneamente, como um radio, uma força misteriosa se apoderou do meu coração. E essa força fez com eu estancasse as lágrimas que rolavam pela minha face.
Naquele momento me dei conta de que me tiraram a liberdade, mas a verdadeira liberdade - a de pensamento - essa não há justiça, nem condenação, nada, nada que a possa tirar de alguém.
Inspirado nos seguintes trabalhos de minha autoria.
- Poetrix: FINALMENTE LIVRE
- Conto Minimalista: COMEMORAÇÃO DE RICO
M I C R O C O N T O S - n. 02
É A MORTE... OU A VIDA?
A luzes se apagavam. E ela dançava num canto do salão. Não a perceberam. Só médicos, num hospital. Do coma alcoólico à morte, só um passo.
APAIXONANTE BATALHA JUDICIAL
Estavam se separando. O marido queria a guarda dos filhos. Nesse intervalo, ela se apaixonou por outro. O processo se tornou mais simples.
NOS BRAÇOS DE UM POLICIAL
Em segundos o assaltante arrancou a bolsa da mulher. Correu. Prendeu o pé no buraco da calçada e caiu literalmente nos braços da policia.
SEM ALMA
Desejava se envolver, corpo e alma. Encontrou o parceiro, que só queria corpo. Estão juntos. Justificativa dela: “Quem não tem cão...”
“SANTO” SANTOS!
Cândida não acreditava em santos de igreja. Casou-se com o Santos, que vivia “pulando a cerca”. Ela não duvidava da fidelidade do marido.
TÁ NO LUCRO
Tudo tem vantagens. Aos 23 anos, ele estava ficando careca. O amigo, de 55, argumentou: Bom pra ti! Aos 50, não terás que tingir os cabelos.
SEXUALIDADE DUVIDOSA
Pai rigoroso, desconfiava da sexualidade do filho, 35 anos, ainda sem casar. Bobagem. Ele namorava. A guria recebia grana alta pra fingir.
CHATA QUE DÓI
Pais separando. Criança só sabia pirraçar e dizer: “Eu quero”. Mãe deu-lhe tapas em pleno shopping. Marido passando com a namorada viu e...
TENDÊNCIA OU EVIDENCIA?
Colares, pulseiras, brincos, correntinhas... Pai revoltado. Ia dar bronca no filho, quando o viu “babando” com uma revista de garotas nuas.
“SANTA” EFIGÊNIA
Efigênia odiava palavrões. À noite, gritos e gemidos saíam do seu apê. De dia, fugia dos vizinhos. Viviam cochichando isso que você pensou.
DOIS... AO MESMO TEMPO
Marido: som alto pra não ouvir briga de vizinhos. A esposa entra correndo na sala: “Tragédia no prédio. Bati o carro na entrada da garagem.”
NADA DE CAMA, POR FAVOR!
Divorciaram. Ele continuou morando com a ex. Ela fazia tudo do mesmo jeito pra ele. E não ia receber pensão se ele morresse. Exigiu salário.
HOMEM GOSTA MESMO É DE HOMEM PARA...
Todo dia ele chegava tarde em casa. Dizia que estava no bar bebendo com os amigos. Ela desconfiou. Foi vigiar e descobriu que era verdade.
COMO?
Morando com a avó há um ano. Moça tímida da roça. Dormia no canto da cama da velha. Nem fez amizades. Não saía. Surpresa!!! Nasceu o menino.
TARDE DEMAIS
Caminhada à noite. Se cruzavam. Nunca se falaram. Um dia, ao criar coragem, ele abriu a boca e... sentiu tudo girar. Ela só ouviu: Socor...
M I C R O C O N T O S - n. 01
PÁGINAS DE FUGAS
Na Suíça, ela se apaixonou. Sem se envolver. Visto vencido. Difícil fugir a dois: cruzar fronteira, carimbar passaporte.
CÃO SUICIDA
Bebeu o leite. Esperou o efeito. Saiu cambaleando. Esbarrou no cãozinho morto na porta. A mãe gritou: “Troquei seu leite. Totó bebeu no copo.”
PRÍNCIPE ENCANTADO
A rua estava escura, molhada. Sem querer, esbarrei nele. Ele pulou longe. Era um sapo, mas não virou um príncipe encantado não. Sério.
VOYEUR?
Morava num beco escuro. À noite, da greta da janela, olhava-a passar, vindo da escola. Puseram luzes nos postes. A vontade de vê-la acabou.
FALTOU ENCANTO
Você chegou, trazendo encanto à minha vida. Era tudo que eu queria. Foi embora sem dizer adeus. Dei graças a Deus. Já não encantava mais.
FREUD EXPLICA ESSA!
Ia a psicóloga resolver os seus “grilos”. Acabou adquirindo mais. Se apaixonou. Ela era casada. Encomendou a morte do marido. Pegou cadeia.
BEM-VINDOS AO BRASIL, again!
O assalariado, carro zero para impressionar a menina. O empresário, propôs casório. No dia, o pai foi removido da Embaixada para o Brasil.
INDENIZAÇÃO TRABALHISTA
Ela foi pra cidade grande trabalhar. Perdeu o emprego. Voltou pra casa dos pais com um filho. Apelidaram a criança de Indenização. Que maldade!
O CASAMENTO DA MARIA SUMIDA
Queria se casar rapidamente. Pôs anúncio no jornal - telefone e tudo. Se arrependeu. Decidiu fugir, se esconder. Nesse dia, o jornal faliu.
SURPRESA GAY
Ele decidiu contar que era gay. Quando reuniu a família pra dizer: “saí do armário”, a mãe lançou a “bomba”: - Me apaixonei por uma mulher.”
ESFREGANDO POR TODO LADO
Trabalhadora... A patroa ia dormir e ela ficava “ralando” até tarde. Patrão no escritório. Ao nascer o filho, DNA para registro no nome dele.
BOCA RICA
O ladrão sabia que ele tinha dente de ouro. Agarrou-o e com um alicate, extraiu o dente. Liberado, ele gritou: - “Bobão, arrancou só um!”
COINCIDÊNCIAS EXISTEM
“Seu marido tá no motel com outra”. Ela foi dar o flagra. Bateu o carro na entrada. A vítima saiu brava. Reconheceu a filha com o padrasto.
NÓS NUM SABE É DE NADA
Bronca. Estavam ensinando coisas erradas pros alunos, inclusive falar. Quando a diretora terminou, uma Professora disse: Bão, isso nós sabe!
É A VIDA... OU A MORTE?
Um filho seria tudo. Fez o impossível para engravidar. Vieram trigêmeos, mas não pôde sair do hospital para ver o marido, morto num assalto.
SEQUELAS DA COPA 2014
Visando à probabilidade de o Brasil sediar a Copa do Mundo em 2014, que hoje se tornou realidade, ele já estava estudando inglês incansavelmente. Dia e noite. Até sonhava em inglês.
A família ficou preocupada com o filho enfiado nos livros e resolveu proporcionar-lhe uma viagem. Mandaram-no para Blumenau.
Quem sabe ali, vendo aquela deslumbrante arquitetura alemã, ele se esquecesse do inglês?
Bem, de Blumenau, o cara resolveu ir para Porto Alegre. Estava de férias mesmo. Em PoA, foi dar um rolé no Barrasulshopping, um point luxuosíssimo da capital gaúcha.
Entrou no banheiro. Usou-o para a necessidade. No final, queria dar descarga, mas não viu mecanismo nenhum que lhe desse a oportunidade de fazê-lo. Então, encaminhou-se para a pia. Começou a lavar as mãos, quando através do espelho, viu alguém entrar no banheiro e fazer o mesmo que ele havia feito. Logo após, o rapaz levantou ligeiramente a ponta do pé direito e acionou um pequenino objeto afixado no chão. Ouviu-se o barulho de água escorrendo. Logo em seguida, ele veio também lavar as mãos. Depois disso, o nosso amigo observou melhor o mictório. Foi então que viu escrito: Pise No Pidal. Arregalou os olhos.
Outros homens entraram no banheiro, mas nenhum chegou à mesma conclusão que ele chegou porque não eram telepatas e talvez nem estivessem pensando em inglês. O nosso amigo concluiu:
- Acho que estou precisando mesmo esquecer um pouco o inglês. Eu li pais no pidol... E é “PISE NO PEDAL"
CASA SUSPEITA
Estavam no intervalo do almoço. Sérgio chamou o colega a um canto da sala e falou de maneira que os demais não ouvissem:
- Está preparado para ver cenas chocantes?
- Onde?
- No computador. Vem!
Jonas acompanhou-o, se esfregando de curiosidade. E à medida que Sérgio ia abrindo fotos, os olhos do amigo só faltavam pular das órbitas.
- Uau! Que isso, rapaz?
- Sabe onde fica essa casa? Aqui! - E mostrou o local no mapa da cidade.
- Nesse lugar?
- Pois é! Se eu contasse o que aconteceu lá, você não iria acreditar, não é?
- Agora acredito. Aliás, nem dá pra acreditar! Veja o muro, as paredes exteriores, a cor...
Sérgio abriu outra foto e mostrou:
- Dentro... olha dentro da casa...
- Meu Deus! O inquilino praticamente destruiu tudo. Ficou parecendo casa suspeita, maloca de malandro! Cara, sua casa ficou em ruínas.
- Casa de aluguel... certos inquilinos... Agora tenho que correr atrás!
- Você vai entrar na justiça!?
- Vou. A justiça já está no meu bolso!
- Não entendi.
- Peguei um empréstimo no banco para recuperar a minha casa! Não posso esperar muito tempo!
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